sexta-feira, 18 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
Forças Elementais ou Espíritos da Natureza
FORÇAS ELEMENTAIS OU ESPÍRITOS DA NATUREZA
pelo Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO
Venerável Mestre da Loja “Universitária-Verdade e Evolução” nº.3492 do Rito Moderno (2005-2007)
ex-Venerável da Loja Miguel Archanjo Tolosa nº.2131 do R.E.A.A.(1991-1993)
ex-Grande Secretário Geral de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001)
Presidente do Conselho Editorial do Jornal Egrégora - Órgão Oficial de Divulgação do Grande Oriente do Distrito Federal.
O binômio macrocosmos/microcosmos significa a relação que existe entre o Universo e o Homem, considerado como medida de todas as coisas. Este antropocentrismo, base da Astrologia, da Alquimia, e dos numerosos sistemas metafísicos, foi aceito durante milênios. Significava a cosmovisão na qual o ser humano era considerado a síntese perfeita e completa de tudo que existe no universo. A partir dessa concepção floresceram muitas doutrinas que consideravam o surgimento da vida e do Homem a finalidade verdadeira da criação e que atribuía à evolução um sentido maior.
O Panteísmo é, em certo sentido, uma concepção moderna dessa doutrina. Para o panteísta, Deus está presente em todos os seres e coisas, sendo, pois, Ele e a natureza uma coisa só. O mais conhecido sistema panteísta da Filosofia é o de Espinosa (1632-1677), embora a doutrina panteísta tenha florescido mais recentemente na obra de Emerson (1803-1882).
Embora rejeitada pelo racionalismo filosófico, a Ciência moderna nos surpreende, convergindo exatamente nessa direção. Segundo tal visão revolucionária, o mundo não é absurdo consoante afirmava Sartre (1905-1980) e, tampouco, o homem surgiu nele por acaso, mas o universo, desde o início dos tempos, parece ter conspirado para o aparecimento da vida e do Homem.
Para se dar conta de que a Terra, o Mar, o Ar e o Fogo estão cheios de coisas vivas basta olhar para eles. Mas são poucos os pensadores que se atreveram a fazer distinções objetivas entre o Homem e a natureza, entre o mundo visível e invisível. A Humanidade deve a Paracelso (1493-1541), notável médico e cientista, a mais completa e lúcida exposição sobre esse ramo da Filosofia que lida com as substâncias espirituais. Paracelso, cujo nome completo era Philippus Aureolus Paracelsus von Hohenheim, é considerado, com todo o direito e honra, como o promotor da grande revolução científica do Renascimento, pespegando, por isso, o epíteto de "Lutero da Medicina".
A idéia de que a Terra, o Mar e o Ar são habitados por seres invisíveis e inteligentes pode parecer ridícula à mente prosaica de nossos dias. Essa doutrina, entretanto, encontra a adesão de muitos cientistas e filósofos, dentre os quais, Paracelso foi o primeiro. Do mesmo modo que a natureza visível é habitada por um número infinito de criaturas viventes, assim também, segundo ele, a contraparte invisível da natureza é povoada por uma hoste infinita de seres.
Em seu livro "Philosophi Occulta" (em latim), Paracelso acrescenta que, enquanto o Homem é composto de várias naturezas (espírito, alma, mente, corpo) combinadas em uma unidade, o Elemental ou Espírito da Natureza não tem senão um princípio, que é o éter de que se compõe e no qual vive.
O leitor deve ter em mente de que quando se fala em éter o que se designa é a essência espiritual de um dos quatro elementos. Existem tantos éteres quantos elementos e tantas famílias distintas de espíritos da natureza quantos éteres existem. Essas famílias estão completamente isoladas dentro de seu próprio éter e não tem contato com os seres dos outros éteres. Mas como o Homem tem dentro de sua própria natureza centros de uma consciência sensitivos aos impulsos de todos os quatro elementos, é possível para qualquer dos elementos comunicar-se com ele sob condições apropriadas. Isso significa que cada espécie move-se apenas no elemento ao qual pertence e nenhum passa de seu meio-ambiente para outro. A Igreja reuniu todas essa entidades elementais sob o nome geral de demônios.
A palavra demônio nem sempre teve o sentido que os cristãos lhe atribuem. Foi a Igreja que satanizou esse termo, identificando-o com o espírito do mal. Os gregos chamavam daemon (demônio) a alguns elementais, especialmente os de ordem elevada. O mais famoso desses daemons foi o misterioso espírito que instruiu Sócrates e do qual o grande filósofo falava nos termos mais elevados.
Muitos dos grandes pensadores tiveram a assistência de uma entidade que pode ser considerada como elemental. Jakob Böhme (1575-1624) dizia-se inspirado por um "anjo", o mesmo ocorrendo com Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), fundadora da Sociedade Teosófica.
Paracelso afirma que os elementais não são meramente espíritos, porque dispõe de um corpo sutil e material que, na doutrina teosófica é denominada de astral, capaz de, em determinadas circunstâncias, manifestar-se no plano físico. Em certas situações, tais entidades podem agir sobre o ser humano, quando este lhes dá espaços em sua mente. O Conde de Gabalis procurou demonstrar, com exemplo, a união de um ser humano com um elemental. Entre os filhos de tais uniões, ele assinala Hércules, Aquiles, Enéias, Teseu, Platão, Alexandre Magno e Apolônio de Tiana.
A Filosofia de Paracelso recebeu a influência do naturalismo renascentista, tendo tido um papel decisivo na progressiva evolução da magia naturalista para a ciência experimental. Em seu tempo foi ele aquela poderosa tempestade que separava ou reunia tudo o que, até então, ninguém tivera a coragem de tocar. Vemos em Paracelso o precursor da Química, além da Psicologia empírica. Durante toda a sua vida lutou pelos seus grandes projetos de reforma das artes médicas. Em virtude de seus grandes conhecimentos herméticos foi considerado por muitas autoridades de seu tempo como membro ou mesmo como mentor da misteriosa Fraternidade Rosacruz.
A partir das teorias dos cientistas aqui citados, poderíamos considerar esses espíritos da natureza como uma espécie de humanidade, se não fosse o fato de nenhum deles nem os mais elevados possuírem uma individualidade permanente que se reencarne. É por isso mesmo, e pelo fato de terem um éter apenas, podemos afirmar que a evolução humana é diferente dos espíritos da natureza. Mas sejam quais forem as etapas dessa evolução, pouco ou nada sabemos a respeito dela.
Tratamos até aqui dos quatro elementos ou espíritos da natureza, comentando as obras de autores antigos e modernos, em especial as de Paracelso. Gostaríamos, agora, ao concluir, examinar sucintamente o problema dos quatro elementos tal como é visto pela Maçonaria.
A Ciência moderna abandonou, desde Lavoisier (1743-1794), a teoria dos Quatro Elementos, mas essa tomada de posição, embora plenamente válida sob o ponto de vista científico, não pode servir de argumento refutativo à teoria hermética, de vez que esta não é uma Física, mas uma Metafísica.
A "purificação" pelos "quatro elementos", próprio do Rito Escocês Antigo e Aceito é essencialmente de natureza hermética. Quem quiser compreender realmente a iniciação maçônica em qualquer grau, deve ter em mente que esses "Elementos" não são, de modo algum, os corpos da Física e da Química, traduzidos pelos termos de Terra, Água, Ar e Fogo, mas abstrações que devem ser consideradas princípios de vida.
Estes são, se formos ao fundo das coisas, as verdadeiras realidades do universo, a partir das quais as aparências sensíveis e tangíveis tomam forma. É a sua ação quádrupla e combinada sobre o Homem que transforma o aspirante em iniciado, preparando-o para a iluminação final.
pelo Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO
Venerável Mestre da Loja “Universitária-Verdade e Evolução” nº.3492 do Rito Moderno (2005-2007)
ex-Venerável da Loja Miguel Archanjo Tolosa nº.2131 do R.E.A.A.(1991-1993)
ex-Grande Secretário Geral de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001)
Presidente do Conselho Editorial do Jornal Egrégora - Órgão Oficial de Divulgação do Grande Oriente do Distrito Federal.
O binômio macrocosmos/microcosmos significa a relação que existe entre o Universo e o Homem, considerado como medida de todas as coisas. Este antropocentrismo, base da Astrologia, da Alquimia, e dos numerosos sistemas metafísicos, foi aceito durante milênios. Significava a cosmovisão na qual o ser humano era considerado a síntese perfeita e completa de tudo que existe no universo. A partir dessa concepção floresceram muitas doutrinas que consideravam o surgimento da vida e do Homem a finalidade verdadeira da criação e que atribuía à evolução um sentido maior.
O Panteísmo é, em certo sentido, uma concepção moderna dessa doutrina. Para o panteísta, Deus está presente em todos os seres e coisas, sendo, pois, Ele e a natureza uma coisa só. O mais conhecido sistema panteísta da Filosofia é o de Espinosa (1632-1677), embora a doutrina panteísta tenha florescido mais recentemente na obra de Emerson (1803-1882).
Embora rejeitada pelo racionalismo filosófico, a Ciência moderna nos surpreende, convergindo exatamente nessa direção. Segundo tal visão revolucionária, o mundo não é absurdo consoante afirmava Sartre (1905-1980) e, tampouco, o homem surgiu nele por acaso, mas o universo, desde o início dos tempos, parece ter conspirado para o aparecimento da vida e do Homem.
Para se dar conta de que a Terra, o Mar, o Ar e o Fogo estão cheios de coisas vivas basta olhar para eles. Mas são poucos os pensadores que se atreveram a fazer distinções objetivas entre o Homem e a natureza, entre o mundo visível e invisível. A Humanidade deve a Paracelso (1493-1541), notável médico e cientista, a mais completa e lúcida exposição sobre esse ramo da Filosofia que lida com as substâncias espirituais. Paracelso, cujo nome completo era Philippus Aureolus Paracelsus von Hohenheim, é considerado, com todo o direito e honra, como o promotor da grande revolução científica do Renascimento, pespegando, por isso, o epíteto de "Lutero da Medicina".
A idéia de que a Terra, o Mar e o Ar são habitados por seres invisíveis e inteligentes pode parecer ridícula à mente prosaica de nossos dias. Essa doutrina, entretanto, encontra a adesão de muitos cientistas e filósofos, dentre os quais, Paracelso foi o primeiro. Do mesmo modo que a natureza visível é habitada por um número infinito de criaturas viventes, assim também, segundo ele, a contraparte invisível da natureza é povoada por uma hoste infinita de seres.
Em seu livro "Philosophi Occulta" (em latim), Paracelso acrescenta que, enquanto o Homem é composto de várias naturezas (espírito, alma, mente, corpo) combinadas em uma unidade, o Elemental ou Espírito da Natureza não tem senão um princípio, que é o éter de que se compõe e no qual vive.
O leitor deve ter em mente de que quando se fala em éter o que se designa é a essência espiritual de um dos quatro elementos. Existem tantos éteres quantos elementos e tantas famílias distintas de espíritos da natureza quantos éteres existem. Essas famílias estão completamente isoladas dentro de seu próprio éter e não tem contato com os seres dos outros éteres. Mas como o Homem tem dentro de sua própria natureza centros de uma consciência sensitivos aos impulsos de todos os quatro elementos, é possível para qualquer dos elementos comunicar-se com ele sob condições apropriadas. Isso significa que cada espécie move-se apenas no elemento ao qual pertence e nenhum passa de seu meio-ambiente para outro. A Igreja reuniu todas essa entidades elementais sob o nome geral de demônios.
A palavra demônio nem sempre teve o sentido que os cristãos lhe atribuem. Foi a Igreja que satanizou esse termo, identificando-o com o espírito do mal. Os gregos chamavam daemon (demônio) a alguns elementais, especialmente os de ordem elevada. O mais famoso desses daemons foi o misterioso espírito que instruiu Sócrates e do qual o grande filósofo falava nos termos mais elevados.
Muitos dos grandes pensadores tiveram a assistência de uma entidade que pode ser considerada como elemental. Jakob Böhme (1575-1624) dizia-se inspirado por um "anjo", o mesmo ocorrendo com Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), fundadora da Sociedade Teosófica.
Paracelso afirma que os elementais não são meramente espíritos, porque dispõe de um corpo sutil e material que, na doutrina teosófica é denominada de astral, capaz de, em determinadas circunstâncias, manifestar-se no plano físico. Em certas situações, tais entidades podem agir sobre o ser humano, quando este lhes dá espaços em sua mente. O Conde de Gabalis procurou demonstrar, com exemplo, a união de um ser humano com um elemental. Entre os filhos de tais uniões, ele assinala Hércules, Aquiles, Enéias, Teseu, Platão, Alexandre Magno e Apolônio de Tiana.
A Filosofia de Paracelso recebeu a influência do naturalismo renascentista, tendo tido um papel decisivo na progressiva evolução da magia naturalista para a ciência experimental. Em seu tempo foi ele aquela poderosa tempestade que separava ou reunia tudo o que, até então, ninguém tivera a coragem de tocar. Vemos em Paracelso o precursor da Química, além da Psicologia empírica. Durante toda a sua vida lutou pelos seus grandes projetos de reforma das artes médicas. Em virtude de seus grandes conhecimentos herméticos foi considerado por muitas autoridades de seu tempo como membro ou mesmo como mentor da misteriosa Fraternidade Rosacruz.
A partir das teorias dos cientistas aqui citados, poderíamos considerar esses espíritos da natureza como uma espécie de humanidade, se não fosse o fato de nenhum deles nem os mais elevados possuírem uma individualidade permanente que se reencarne. É por isso mesmo, e pelo fato de terem um éter apenas, podemos afirmar que a evolução humana é diferente dos espíritos da natureza. Mas sejam quais forem as etapas dessa evolução, pouco ou nada sabemos a respeito dela.
Tratamos até aqui dos quatro elementos ou espíritos da natureza, comentando as obras de autores antigos e modernos, em especial as de Paracelso. Gostaríamos, agora, ao concluir, examinar sucintamente o problema dos quatro elementos tal como é visto pela Maçonaria.
A Ciência moderna abandonou, desde Lavoisier (1743-1794), a teoria dos Quatro Elementos, mas essa tomada de posição, embora plenamente válida sob o ponto de vista científico, não pode servir de argumento refutativo à teoria hermética, de vez que esta não é uma Física, mas uma Metafísica.
A "purificação" pelos "quatro elementos", próprio do Rito Escocês Antigo e Aceito é essencialmente de natureza hermética. Quem quiser compreender realmente a iniciação maçônica em qualquer grau, deve ter em mente que esses "Elementos" não são, de modo algum, os corpos da Física e da Química, traduzidos pelos termos de Terra, Água, Ar e Fogo, mas abstrações que devem ser consideradas princípios de vida.
Estes são, se formos ao fundo das coisas, as verdadeiras realidades do universo, a partir das quais as aparências sensíveis e tangíveis tomam forma. É a sua ação quádrupla e combinada sobre o Homem que transforma o aspirante em iniciado, preparando-o para a iluminação final.
Simbolismo da Pedra
SIMBOLISMO DA PEDRA
Correspondências maçónico-alquímicas
Carlos Dugos
RESUMO
Na tradição ocidental, o simbolismo da pedra constitui um tema maior, sobretudo nas vias múltiplas da Arte Real. Às várias pedras maçónicas, indicadoras de outros tantos graus iniciáticos, correspondem, mais ou menos directamente, os diversos estados da pedra alquímica, ao longo da Obra. Do ponto de vista religioso, o cristianismo apresenta valores semelhantes, fazendo da pedra um elemento simbólico central da doutrina salvífica.
Ao contrário do que frequentemente se crê, tais coincidências não têm origem em processos de adopção, em que símbolos preexistentes são enxertados arbitrariamente numa corrente particular; elas correspondem à coerência de um único repertório simbólico específico, próprio para servir de suporte a uma determinada doutrina e à acção em consequência.
____________________
Na tradição ocidental, o simbolismo da pedra constitui um tema maior, sobretudo nas vias múltiplas da Arte Real. Às várias pedras maçónicas, indicadoras de outros tantos graus iniciáticos, correspondem, mais ou menos directamente, os diversos estados da pedra alquímica, ao longo da Obra. Do ponto de vista religioso, o cristianismo apresenta valores semelhantes, fazendo da pedra um elemento simbólico central da doutrina salvífica.
Ao contrário do que frequentemente se crê, tais coincidências não têm origem em processos de adopção, em que símbolos preexistentes são enxertados arbitrariamente numa corrente particular; elas correspondem à coerência de um único repertório simbólico específico, próprio para servir de suporte a uma determinada doutrina e à acção em consequência.
ESPECIFICIDADE DA ARTE REAL
A Arte Real, nas suas várias modalidades, constitui um código espiritual de conhecimento geminado com um código técnico de acção. O que se sabe reflecte-se directamente no que se faz e o que se vai fazendo reflecte-se directamente no que se vai sabendo.
Deste modo, à Iniciação Real estão ligados dois deveres iniciáticos: conhecer as causas espirituais da realidade não manifestada e agir materialmente, de modo canónico, sobre os efeitos da manifestação; mais sinteticamente: saber, em potência e operar, em acto. A divisa alquímica ora et labora é, neste aspecto, exemplar.
Nas várias disciplinas iniciáticas de manipulação ou transmutação da Natureza, cabem praticamente todos os arquétipos da actividade humana, desde as artes e ofícios ao exercício da guerra1; no entanto, devido ao âmbito em que incide a sua acção, Alquimia e Maçonaria2 encontram-se em grande proximidade.
PEDRA DE OBRA E PEDRA OCULTA
A pedra que o construtor toma para ser afeiçoada e integrada no edifício, corresponde ao lapis que constitui a matéria prima a manipular no matraz.
Porém, quer uma quer outra, independentemente da utilidade material de que possam vir a revestir-se, representam o aspecto mais exterior da Obra ou seja: apresentam-se apenas como resultado de uma acção exercida, pelo oficial, sobre a manifestação. Esse resultado, em tudo semelhante ao efeito do espelho, projecta na manifestação princípios não manifestados, estes de carácter eminentemente interior.
Assim, pode afirmar-se que, a pedra visível e palpável sobre a qual opera o manipulador, é a manifestação de uma pedra oculta, invisível e impalpável. Esta pedra - causa espiritual - determina e condiciona a pedra da Obra - efeito material. Entre elas, como elemento de ligação mediando dois mundos e duas ordens de realidade, o operador realiza a acção perfeita que é a de representar materialmente, na manifestação, o sentido e a ordem transcendente, numa acção dupla e simultânea, impregnando a matéria de espírito e dando corpo à espiritualidade, conforme a regra solve et coagula.
Dissolver o fixo e fixar o volátil eis o permanente labor do alquimista e do maçon. O primeiro reproduz no vaso o drama cósmico da Criação, de modo a rectificar a pedra material, marcada pelo estigma da Queda, de modo a fazer dela um reflexo perfeito da pedra oculta. O segundo toma a pedra inútil e rectifica-a de modo a que ela possa ser parte corporal do Templo, ganhando nessa metamorfose uma condição espiritual que a sua imperfeição nativa não permitiria. Espiritualizar a substância dando substância ao espírito, eis o ofício do manipulador perfeito, com mandato iniciático para o seu labor.
ESTADOS DA PEDRA NAS NOMENCLATURAS SIMBÓLICAS
A Tradição distingue dois géneros de pedra sagrada ou sacralizada: os aerolitos - porque oriundos do Céu, com todas as consequências simbólicas dessa origem - e as pedras de Obra ou seja, as que são objecto de manipulação iniciática. O aerolito, correspondendo a uma descida de um princípio celeste à manifestação terrestre, tem por complemento o bétilo, representando uma subida de um elemento terrestre à espiritualidade celeste.
No caso presente, interessa-nos exclusivamente a pedra manipulada canonicamente que, tendo no bétilo o seu arquétipo, constitui sempre um modo recíproco de espiritualizar a substância, materializando o espírito.
Tomando como dupla referência as tradições hermética e maçónica, estabeleçamos as analogias entre a pedra alquímica, enquanto matéria prima da Obra, e a pedra do construtor, enquanto módulo individual do Templo. Partindo deste princípio, consideremos, analogicamente as fases fundamentais da Obra do alquimista e do maçon.
A fase hermética do nigredo, em que a matéria escolhida é "carbonizada" destina-se a provocar a sua morte física - putrefacio - condição primeira para um eventual renascimento in gloria. Marcado pelo luto das trevas, este momento constitui uma "paixão" no sentido teológico do termo. Tal dissolução morfológica destrói a escória corporal, tomando a massa um aspecto cadavérico. Não obstante, sob tal aparência, algo palpita no seu interior, indicando que a morte é um mero efeito iniciático e não uma causa absoluta.
Bem assim, a Pedra Bruta maçónica é negra e sobre ela se faz o primeiro trabalho do recém iniciado que, vindo das trevas mortais em que todo o homem nasce, viu uma réstia da luz, ao terceiro "golpe". Esta pedra disforme, aparentemente inerte, guarda igualmente, em si, o germe modular de uma metamorfose. Aprendendo de pronto os ensinamentos da Iniciação, o novo Aprendiz transmite à Pedra Bruta , por três "golpes", a luz que do mesmo modo lhe foi dada. Com isto, torna dúctil a morfologia áspera do mineral, transmitindo-lhe um sopro do espírito, como prelúdio de uma fase mais avançada da Obra.
O albedo hermético tem o seu tempo quando a escória negra da pedra calcinada apresenta, em alguns pontos, o brilho do diamante negro. É o sinal de que o cadáver se anima de uma insuspeitada vitalidade. Trata-se, então, de libertar essa emanação de todo o carvão que a envolve, de forma a que, devidamente purificada e isolada, ganhe o esplendor brilhante da neve, um fulgor de alvura e de pureza dificilmente atribuível à natureza, no seu estado nativo. Ao corpo renascido juntou-se agora uma "alma".
Essa brancura é também emblemática da Pedra Cúbica, na qual o Companheiro maçon aplicou a sua Arte purificadora. A escória que enegrecia o minério e lhe dava uma forma caótica, foi desbastada até se obter a perfeição do cubo, entidade geométrica associada à volumetria das quatro, das seis e, potencialmente, às sete direcções do espaço, ou outras tantas qualidades arquétipas da realidade. Agora, a pedra é uma fonte de conhecimento e ensinamento.
Mantendo um regime de fogo e tempo, que a Alquimia tem por adequado, a pedra alva ganha novas coloração e alcança o rubedo. Não há - dizem os manipuladores afortunados - nenhum vermelho na Natureza que se assemelhe ao esplendor rubro dessa matéria sublime. Alegoricamente ela é a coroa real de toda a Obra; o ponto mais alto a que o artista dedicado esperaria chegar. A partir de então já nada se pode acrescentar ou subtrair à pedra excelsa. Espírito e matéria são uma só coisa.
Também a Pedra Cúbica de Ponta deve ser representada a vermelho. À perfeição do quadrado, foi adicionada a natureza divina do triângulo; ao cubo do espaço veio juntar-se a pirâmide de tempo. Depois de muito labor e meditação o Mestre maçon alcançou, também ele, a coroa da sua Arte, produzindo uma pedra em que se consubstanciam o Céu e a Terra, numa única e nova natureza.
OUTRAS PEDRAS COINCIDENTES
A Pedra Filosofal alquímica, constitui uma particularidade contida na natureza da Pedra Rubra, do mesmo modo que a Pedra de Chave maçónica representa uma especificidade incluída no contexto geral da Pedra Cúbica de Ponta. A primeira reporta-se a um sentido temporal de eternidade - a sua posse equivale, alegoricamente, a viver-se para sempre, livre de doenças e da morte. A segunda está associada à ideia do espaço infinito - sendo ela o remate central da abóbada do Templo, o que equivale a dizer-se a abóbada celeste, constitui o suporte do Universo3.
A Maçonaria conhece ainda a Pedra Angular ou de Fundamento, cornerstone cuja implantação, no início de uma obra de edificação, é praticada mediante um rito próprio que, na versão profana da construção civil, foi substituído pela cerimónia do lançamento da "primeira pedra". Tal rito está ligado à ideia de início; primeiro impulso, em tudo conforme com o simbolismo de Janu a divindade latina propiciadora de todos os começos, já que presidia à porta que mediava entre o fim de um ano e o começo de outro, numa clara alusão ao carácter solsticial desta entidade4.
Como se depreende, o simbolismo desta pedra remete para a matéria prima inicial da Obra, seja ela a Pedra Bruta ou a substância escolhida para a manipulação alquímica.
COINCIDÊNCIAS RELIGIOSAS
A corrente religiosa cristã, a cuja tradição estão associadas praticamente todas as modalidades ocidentais da Arte Real, incluindo a Alquimia e a Maçonaria, tem na pedra uma das suas principais figuras simbólicas. De resto, o simbolismo da pedra é universal, particularmente nos povos sedentários e, sobretudo, devido à unidade da Tradição Primordial, de onde provêm todas as tradições particulares.
De um modo geral, uma pedra é tomada como símbolo de um homem, em termos individuais, enquanto o conjunto ordenado de pedras - o Templo - simboliza o colectivo da Humanidade.
Pedro foi chamado a tornar-se a pedra de fundamento da futura Igreja já que, do ponto de vista pastoral, a pedra perfeita personificada pelo sucessor de Cristo, serviria de modelo às outras pedras formadas pelo colectivo dos crentes, sendo a Igreja o próprio conjunto assim formado.
Recorde-se, por outro lado, o anúncio evangélico de que o Templo derrubado seria reerguido em três dias, correspondentes à paixão, morte e ressurreição de Cristo e, bem assim, às três fases da Obra hermética e aos três tempos da mestria maçónica.
Estas consonâncias entre conteúdos religiosos e iniciáticos nada têm de estranho e não configuram de modo algum um contencioso hierárquico entre as duas instituições. A via da fé e a via da Iniciação correspondem a caminhos paralelos, oriundos de um princípio comum. Tal identidade é particularmente notável no cristianismo, devido à componente de acção evangelizadora que o caracteriza ou seja: do mesmo modo que a Arte Real - como modelo iniciático por excelência - manipula canonicamente o mundo manifestado com vista à sua rectificação, o cristianismo actua sobre a manifestação humana em ordem à sua espiritualização.
A corrente cristã apresenta, na sua origem, um claro sinal do que os elementos do princípio real e activo são nela predominantes sobre os elementos do princípio sacerdotal e contemplativo. Jesus nasce sob a égide do Leão da Casa Real de Judá, de tradição guerreira e não no seio das tribus de vocação sacerdotal, nomeadamente a de Levi.
Esta origem - sempre observada pelas ordens da Cavalaria Espiritual do Ocidente - cria uma consonância exemplar entre tradição religiosa e tradição iniciática. O moderno contencioso que opõe a Igreja a certas modalidades de Iniciação não passa de um mal entendido, proveniente do obscurecimento espiritual de certas organizações que, ancestralmente designadas por iniciáticas apresentam, doutrinariamente, todos os sinais da contra iniciação, devido ao seu alinhamento com as fórmulas do racionalismo e do ateísmo militante.
Estas breves notas limitaram-se a aflorar uma temática que, como se compreende é vastíssima. Neste sentido, o único objectivo a que aqui nos propusemos foi o de despertar o interesse do auditório para um estudo pessoal e aprofundado sobre o assunto.
Carcavelos, Julho de 2002
1. Embora diversa das modalidades ligadas aos ofícios, a Iniciação própria da Cavalaria Espiritual e que cumpre o oficialato da guerra, inclui-se no conjunto da Arte Real, onde representa uma forma activa por excelência.
2. Referimo-nos, como é evidente, à modalidade operativa da Maçonaria, já que, na sua modalidade especulativa, a Ordem não se dedica ao exercício de um mister específico, ligado à pedra e à construção, em geral.
3. Evidentemente, referimos eternidade ou infinito como meras forças de expressão já que, num e noutro caso, conviria mais, em rigor, falar de tempo ou espaço indefinidos.
4. Não sendo agora oportuno alongarmo-nos neste tema diga-se apenas que Janu era patrono dos fabrorum romanos, corporação clássica de construtores, integrada na linha ancestral da Maçonaria operativa. Por outro lado, sendo a Janu consagrado o mês de Janeiro, corresponde-lhe, na cristandade, com o mesmo carácter solsticial, S. João Evangelista, um dos patronos da Maçonaria moderna, de par com o - também solsticial - S. João Baptista.
Correspondências maçónico-alquímicas
Carlos Dugos
RESUMO
Na tradição ocidental, o simbolismo da pedra constitui um tema maior, sobretudo nas vias múltiplas da Arte Real. Às várias pedras maçónicas, indicadoras de outros tantos graus iniciáticos, correspondem, mais ou menos directamente, os diversos estados da pedra alquímica, ao longo da Obra. Do ponto de vista religioso, o cristianismo apresenta valores semelhantes, fazendo da pedra um elemento simbólico central da doutrina salvífica.
Ao contrário do que frequentemente se crê, tais coincidências não têm origem em processos de adopção, em que símbolos preexistentes são enxertados arbitrariamente numa corrente particular; elas correspondem à coerência de um único repertório simbólico específico, próprio para servir de suporte a uma determinada doutrina e à acção em consequência.
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Na tradição ocidental, o simbolismo da pedra constitui um tema maior, sobretudo nas vias múltiplas da Arte Real. Às várias pedras maçónicas, indicadoras de outros tantos graus iniciáticos, correspondem, mais ou menos directamente, os diversos estados da pedra alquímica, ao longo da Obra. Do ponto de vista religioso, o cristianismo apresenta valores semelhantes, fazendo da pedra um elemento simbólico central da doutrina salvífica.
Ao contrário do que frequentemente se crê, tais coincidências não têm origem em processos de adopção, em que símbolos preexistentes são enxertados arbitrariamente numa corrente particular; elas correspondem à coerência de um único repertório simbólico específico, próprio para servir de suporte a uma determinada doutrina e à acção em consequência.
ESPECIFICIDADE DA ARTE REAL
A Arte Real, nas suas várias modalidades, constitui um código espiritual de conhecimento geminado com um código técnico de acção. O que se sabe reflecte-se directamente no que se faz e o que se vai fazendo reflecte-se directamente no que se vai sabendo.
Deste modo, à Iniciação Real estão ligados dois deveres iniciáticos: conhecer as causas espirituais da realidade não manifestada e agir materialmente, de modo canónico, sobre os efeitos da manifestação; mais sinteticamente: saber, em potência e operar, em acto. A divisa alquímica ora et labora é, neste aspecto, exemplar.
Nas várias disciplinas iniciáticas de manipulação ou transmutação da Natureza, cabem praticamente todos os arquétipos da actividade humana, desde as artes e ofícios ao exercício da guerra1; no entanto, devido ao âmbito em que incide a sua acção, Alquimia e Maçonaria2 encontram-se em grande proximidade.
PEDRA DE OBRA E PEDRA OCULTA
A pedra que o construtor toma para ser afeiçoada e integrada no edifício, corresponde ao lapis que constitui a matéria prima a manipular no matraz.
Porém, quer uma quer outra, independentemente da utilidade material de que possam vir a revestir-se, representam o aspecto mais exterior da Obra ou seja: apresentam-se apenas como resultado de uma acção exercida, pelo oficial, sobre a manifestação. Esse resultado, em tudo semelhante ao efeito do espelho, projecta na manifestação princípios não manifestados, estes de carácter eminentemente interior.
Assim, pode afirmar-se que, a pedra visível e palpável sobre a qual opera o manipulador, é a manifestação de uma pedra oculta, invisível e impalpável. Esta pedra - causa espiritual - determina e condiciona a pedra da Obra - efeito material. Entre elas, como elemento de ligação mediando dois mundos e duas ordens de realidade, o operador realiza a acção perfeita que é a de representar materialmente, na manifestação, o sentido e a ordem transcendente, numa acção dupla e simultânea, impregnando a matéria de espírito e dando corpo à espiritualidade, conforme a regra solve et coagula.
Dissolver o fixo e fixar o volátil eis o permanente labor do alquimista e do maçon. O primeiro reproduz no vaso o drama cósmico da Criação, de modo a rectificar a pedra material, marcada pelo estigma da Queda, de modo a fazer dela um reflexo perfeito da pedra oculta. O segundo toma a pedra inútil e rectifica-a de modo a que ela possa ser parte corporal do Templo, ganhando nessa metamorfose uma condição espiritual que a sua imperfeição nativa não permitiria. Espiritualizar a substância dando substância ao espírito, eis o ofício do manipulador perfeito, com mandato iniciático para o seu labor.
ESTADOS DA PEDRA NAS NOMENCLATURAS SIMBÓLICAS
A Tradição distingue dois géneros de pedra sagrada ou sacralizada: os aerolitos - porque oriundos do Céu, com todas as consequências simbólicas dessa origem - e as pedras de Obra ou seja, as que são objecto de manipulação iniciática. O aerolito, correspondendo a uma descida de um princípio celeste à manifestação terrestre, tem por complemento o bétilo, representando uma subida de um elemento terrestre à espiritualidade celeste.
No caso presente, interessa-nos exclusivamente a pedra manipulada canonicamente que, tendo no bétilo o seu arquétipo, constitui sempre um modo recíproco de espiritualizar a substância, materializando o espírito.
Tomando como dupla referência as tradições hermética e maçónica, estabeleçamos as analogias entre a pedra alquímica, enquanto matéria prima da Obra, e a pedra do construtor, enquanto módulo individual do Templo. Partindo deste princípio, consideremos, analogicamente as fases fundamentais da Obra do alquimista e do maçon.
A fase hermética do nigredo, em que a matéria escolhida é "carbonizada" destina-se a provocar a sua morte física - putrefacio - condição primeira para um eventual renascimento in gloria. Marcado pelo luto das trevas, este momento constitui uma "paixão" no sentido teológico do termo. Tal dissolução morfológica destrói a escória corporal, tomando a massa um aspecto cadavérico. Não obstante, sob tal aparência, algo palpita no seu interior, indicando que a morte é um mero efeito iniciático e não uma causa absoluta.
Bem assim, a Pedra Bruta maçónica é negra e sobre ela se faz o primeiro trabalho do recém iniciado que, vindo das trevas mortais em que todo o homem nasce, viu uma réstia da luz, ao terceiro "golpe". Esta pedra disforme, aparentemente inerte, guarda igualmente, em si, o germe modular de uma metamorfose. Aprendendo de pronto os ensinamentos da Iniciação, o novo Aprendiz transmite à Pedra Bruta , por três "golpes", a luz que do mesmo modo lhe foi dada. Com isto, torna dúctil a morfologia áspera do mineral, transmitindo-lhe um sopro do espírito, como prelúdio de uma fase mais avançada da Obra.
O albedo hermético tem o seu tempo quando a escória negra da pedra calcinada apresenta, em alguns pontos, o brilho do diamante negro. É o sinal de que o cadáver se anima de uma insuspeitada vitalidade. Trata-se, então, de libertar essa emanação de todo o carvão que a envolve, de forma a que, devidamente purificada e isolada, ganhe o esplendor brilhante da neve, um fulgor de alvura e de pureza dificilmente atribuível à natureza, no seu estado nativo. Ao corpo renascido juntou-se agora uma "alma".
Essa brancura é também emblemática da Pedra Cúbica, na qual o Companheiro maçon aplicou a sua Arte purificadora. A escória que enegrecia o minério e lhe dava uma forma caótica, foi desbastada até se obter a perfeição do cubo, entidade geométrica associada à volumetria das quatro, das seis e, potencialmente, às sete direcções do espaço, ou outras tantas qualidades arquétipas da realidade. Agora, a pedra é uma fonte de conhecimento e ensinamento.
Mantendo um regime de fogo e tempo, que a Alquimia tem por adequado, a pedra alva ganha novas coloração e alcança o rubedo. Não há - dizem os manipuladores afortunados - nenhum vermelho na Natureza que se assemelhe ao esplendor rubro dessa matéria sublime. Alegoricamente ela é a coroa real de toda a Obra; o ponto mais alto a que o artista dedicado esperaria chegar. A partir de então já nada se pode acrescentar ou subtrair à pedra excelsa. Espírito e matéria são uma só coisa.
Também a Pedra Cúbica de Ponta deve ser representada a vermelho. À perfeição do quadrado, foi adicionada a natureza divina do triângulo; ao cubo do espaço veio juntar-se a pirâmide de tempo. Depois de muito labor e meditação o Mestre maçon alcançou, também ele, a coroa da sua Arte, produzindo uma pedra em que se consubstanciam o Céu e a Terra, numa única e nova natureza.
OUTRAS PEDRAS COINCIDENTES
A Pedra Filosofal alquímica, constitui uma particularidade contida na natureza da Pedra Rubra, do mesmo modo que a Pedra de Chave maçónica representa uma especificidade incluída no contexto geral da Pedra Cúbica de Ponta. A primeira reporta-se a um sentido temporal de eternidade - a sua posse equivale, alegoricamente, a viver-se para sempre, livre de doenças e da morte. A segunda está associada à ideia do espaço infinito - sendo ela o remate central da abóbada do Templo, o que equivale a dizer-se a abóbada celeste, constitui o suporte do Universo3.
A Maçonaria conhece ainda a Pedra Angular ou de Fundamento, cornerstone cuja implantação, no início de uma obra de edificação, é praticada mediante um rito próprio que, na versão profana da construção civil, foi substituído pela cerimónia do lançamento da "primeira pedra". Tal rito está ligado à ideia de início; primeiro impulso, em tudo conforme com o simbolismo de Janu a divindade latina propiciadora de todos os começos, já que presidia à porta que mediava entre o fim de um ano e o começo de outro, numa clara alusão ao carácter solsticial desta entidade4.
Como se depreende, o simbolismo desta pedra remete para a matéria prima inicial da Obra, seja ela a Pedra Bruta ou a substância escolhida para a manipulação alquímica.
COINCIDÊNCIAS RELIGIOSAS
A corrente religiosa cristã, a cuja tradição estão associadas praticamente todas as modalidades ocidentais da Arte Real, incluindo a Alquimia e a Maçonaria, tem na pedra uma das suas principais figuras simbólicas. De resto, o simbolismo da pedra é universal, particularmente nos povos sedentários e, sobretudo, devido à unidade da Tradição Primordial, de onde provêm todas as tradições particulares.
De um modo geral, uma pedra é tomada como símbolo de um homem, em termos individuais, enquanto o conjunto ordenado de pedras - o Templo - simboliza o colectivo da Humanidade.
Pedro foi chamado a tornar-se a pedra de fundamento da futura Igreja já que, do ponto de vista pastoral, a pedra perfeita personificada pelo sucessor de Cristo, serviria de modelo às outras pedras formadas pelo colectivo dos crentes, sendo a Igreja o próprio conjunto assim formado.
Recorde-se, por outro lado, o anúncio evangélico de que o Templo derrubado seria reerguido em três dias, correspondentes à paixão, morte e ressurreição de Cristo e, bem assim, às três fases da Obra hermética e aos três tempos da mestria maçónica.
Estas consonâncias entre conteúdos religiosos e iniciáticos nada têm de estranho e não configuram de modo algum um contencioso hierárquico entre as duas instituições. A via da fé e a via da Iniciação correspondem a caminhos paralelos, oriundos de um princípio comum. Tal identidade é particularmente notável no cristianismo, devido à componente de acção evangelizadora que o caracteriza ou seja: do mesmo modo que a Arte Real - como modelo iniciático por excelência - manipula canonicamente o mundo manifestado com vista à sua rectificação, o cristianismo actua sobre a manifestação humana em ordem à sua espiritualização.
A corrente cristã apresenta, na sua origem, um claro sinal do que os elementos do princípio real e activo são nela predominantes sobre os elementos do princípio sacerdotal e contemplativo. Jesus nasce sob a égide do Leão da Casa Real de Judá, de tradição guerreira e não no seio das tribus de vocação sacerdotal, nomeadamente a de Levi.
Esta origem - sempre observada pelas ordens da Cavalaria Espiritual do Ocidente - cria uma consonância exemplar entre tradição religiosa e tradição iniciática. O moderno contencioso que opõe a Igreja a certas modalidades de Iniciação não passa de um mal entendido, proveniente do obscurecimento espiritual de certas organizações que, ancestralmente designadas por iniciáticas apresentam, doutrinariamente, todos os sinais da contra iniciação, devido ao seu alinhamento com as fórmulas do racionalismo e do ateísmo militante.
Estas breves notas limitaram-se a aflorar uma temática que, como se compreende é vastíssima. Neste sentido, o único objectivo a que aqui nos propusemos foi o de despertar o interesse do auditório para um estudo pessoal e aprofundado sobre o assunto.
Carcavelos, Julho de 2002
1. Embora diversa das modalidades ligadas aos ofícios, a Iniciação própria da Cavalaria Espiritual e que cumpre o oficialato da guerra, inclui-se no conjunto da Arte Real, onde representa uma forma activa por excelência.
2. Referimo-nos, como é evidente, à modalidade operativa da Maçonaria, já que, na sua modalidade especulativa, a Ordem não se dedica ao exercício de um mister específico, ligado à pedra e à construção, em geral.
3. Evidentemente, referimos eternidade ou infinito como meras forças de expressão já que, num e noutro caso, conviria mais, em rigor, falar de tempo ou espaço indefinidos.
4. Não sendo agora oportuno alongarmo-nos neste tema diga-se apenas que Janu era patrono dos fabrorum romanos, corporação clássica de construtores, integrada na linha ancestral da Maçonaria operativa. Por outro lado, sendo a Janu consagrado o mês de Janeiro, corresponde-lhe, na cristandade, com o mesmo carácter solsticial, S. João Evangelista, um dos patronos da Maçonaria moderna, de par com o - também solsticial - S. João Baptista.
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