ALQUIMIA E A MAÇONARIA
pelo Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO
Podemos afirmar que o maçom tem contato com a Alquimia nos primeiros momentos em que, como candidato, tem contato com a Ordem. A Câmara de Reflexões indiscutivelmente é um legado alquimista, a sua "decoração" com os elementos água, enxofre e sal, que acrescida do mercúrio são substâncias que constituem a Prima Matéria da Alquimia. A Alquimia é estudada sob três aspectos diversos, suscetíveis de interpretações distintas, e que são: o cósmico, o humano e o terrestre. Elas são representadas pelas três propriedades alquímicas: enxofre, mercúrio e sal. Muitos autores afirmam que há três, sete, dez e doze procedimentos respectivamente, porém, todos concordam em que há apenas um único objetivo na Alquimia, que é a transmutação em ouro dos metais mais grosseiros. Porém, este é apenas um dos aspectos da Alquimia, o terrestre ou puramente material, pois, compreendemos logicamente que o mesmo processo seja executado nas entranhas da Terra. Contudo além desta interpretação, há na Alquimia um significado simbólico, psíquico e espiritual.
Como vimos o alquimista procura simbolicamente ouro, isto nada mais é do que o maçom procura, através da sua opus, transformar a pedra bruta em pedra polida, e que é o aprimoramento moral e espiritual do maçom. Enquanto o alquimista cabalista muitas vezes procura a realização do ouro material, o alquimista ocultista, desdenhando o ouro das minas, volta toda a sua atenção e concentra todos os seus esforços na Divina Trindade do homem que, quando, finalmente se fundem, formam apenas um.
Os planos espiritual, mental, psíquico e físico da existência humana são comparados, em Alquimia, aos quatro elementos: fogo, ar, água e terra, e cada um deles é suscetível de uma constituição tripla, a saber: fixa, variável e volúvel. Aqui temos também um outro elo entre a Maçonaria e a Alquimia, mas precisamente nas três viagens que o recipiendário é obrigado a fazer acrescido da prova da Terra que simbolicamente, é a Câmara de Reflexões, a que nos referimos' anteriormente.
A Maçonaria vê na prova do AR (primeira viagem com seus ruídos e trovões) a representação do segundo elemento primordial que com seus meteoros e contínuas flutuações é o emblema da vida, sujeito as contraditórias variações. Na Alquimia o AR é trabalhado através da operação sublimatio. Ela transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. O termo "sublimatio" vem do Latim Sublimis, que significa elevado. Isso indica que o aspecto essencial do Sublimatio é um processo de elevação por intermédio do qual uma substância inferior se traduz numa forma superior mediante um movimento ascendente.
Na Maçonaria a água é o oceano e este é um símbolo do povo, a cujos serviços dedicam-se os verdadeiros maçons. Os homens são as gotas do vasto oceano da humanidade, de que as nações são partes.
Na Alquimia a água é a Prima Matéria, idéia que os alquimistas herdaram dos pré-Sócrates. Pensam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à Prima Matéria. A água é trabalhada através da operação Solutio, esta provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. No poema abaixo, escrito por Lao Tse, a Maçonaria fala a mesma linguagem que a Alquimia, quando tratam de água:
"O menor dos homens é como a água.
A água a todas as coisas beneficia
E com elas não compete.
Ocupa os (humildes) locais visto por todos com desdém
Nos quais se assemelha ao Tao
Em sua morada (o Sábio) ama a (humilde) terra
Em seu coração ama a profundidade
Em suas relações com os outros, ama a gentileza
Em suas palavras, ama a sinceridade
No governo ama a paz
No trabalho, ama a habilidade
Em suas ações ama a oportunidade
Porquanto não quere-la
Vê-se livre de reparos."
O quarto elemento, o fogo, também une os propósitos dos dois colégios. Para a Maçonaria o fogo cujas chamas sempre simbolizam aspiração, fervor e zelo deve lembrar ao iniciado que este deve aspirar a excelência e a verdadeira glória e trabalhar com dedicação nas causas empenhadas, principalmente as do povo, da pátria e da ordem.
Para o alquimista o fogo é tratado na operação calcinatio. Eis porque toda imagem que contém o fogo Livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a calcinatio. O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tomando-a branca. Diz Basil Valentine: "Deves saber que isso (a calcinatio) é o único meio correto e legítimo de purificar nossa substância." Isso a vincula ao simbolismo do purgatório. A doutrina do purgatório é a versão teológica da calcinatio projetada na vida depois da morte.
Morte, um tema muito caro para os maçons e alquimistas. Na Maçonaria a morte é tratada de forma muito especial, na Lenda de Hiram que perpassa vários graus da Escada de Jacó. O maçom conhece muito bem estas palavras:... o pó volte a Terra e o espírito volte a Deus que o deu...
Para o alquimista a morte também é um processo, uma continuação que faz parte do trabalho da coagulatio. Esta pertence ao elemento Terra, e costuma ser seguida por outros processos, em geral pela mortificatio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcendência. Eis como podemos entender as palavras do apóstolo Paulo ao vincular o corpo e a carne à morte: "Quem me libertará do corpo desta morte?... Porque, se vivemos na carne, morreremos; mas se por meio do espírito, mortificarmos os feitos do corpo, viveremos... Porque aquele que vive segundo a carne inclina-se para as coisas da carne. A inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do espírito é a vida e paz”.
A identificação do corpo e da carne com a morte deve-se ao fato de que tudo aquilo que nasce no plano espaço-temporal deve submeter-se às limitações dessa existência, que incluem um fim a morte. Esse é o preço do ser real. Uma vez plenamente coagulado ou encarnado, o conteúdo torna-se sem vida, sem maiores possibilidades de crescimento. Emerson exprime essa idéia: "Somente a vida é beneficio, e não a ter vivido. A força cessa no instante do repouso; ela reside no momento da transição de um estado passado para um novo, na voragem do abismo, no arremesso contra o alvo. Eis um fato que o mundo abomina. O fato de a alma vir a ser porquanto isso degrada o passado, tornando todos os bens em pobreza, toda reputação em vergonha, confundindo o santo com o velhaco, varrendo Jesus e Judas para longe, sem distinção.” Realizada a plena coagulatio, vem a putrefactio. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no espírito do espírito ceifará a vida eterna. Um texto alquímico trata do mesmo tema: o leão, o sol inferior pela carne se corrompe... Assim, o leão tem corrompida a natureza por meio da sua carne, que segue os ritmos da lua, e é eclipsada. Porque a lua é a sombra do sol, e com o corpo corruptíveis é consumida; e, por meio da destruição da lua, o leão é eclipsado com auxílio da umidade de mercúrio; o eclipse não obstante, é transmutado tomando-se útil e de melhor natureza, e ainda mais perfeito do que o primeiro.
Em vários graus da Maçonaria o crânio é uma peça importante tanto na representação do grau como na ornamentação do templo para o ritual do grau. Pois bem, na alquimia o crânio como momento mori é um emblema da operação da mortificatio. Ele produz reflexões a respeito da mortalidade pessoal de cada um e serve como pedra de toque para os valores falsos e verdadeiros. Refletir sobre a morte pode nos levar a encarar a vida sob perspectiva da eternidade e, desse modo, a negra cabeça da morte pode transformar-se em ouro. Com efeito, a origem e o crescimento da consciência parecem estar vinculados de maneira peculiar à experiência da morte. Talvez o primeiro par de opostos a penetrar na consciência em vias de despertar dos seres humanos primitivos tenha sido o contraste entre o vivo e o morto. E provável que somente a criatura mortal seja capaz de ter consciência. Nossa mortalidade é nossa fraqueza mais importante e derradeira. E essa fraqueza, segundo C. G. Jung, foi o elemento que colocou Jó em vantagem diante de IAHWEH.
Esta palavra é muito significativa em alguns graus da Escola Filosófica da Maçonaria (REAA). IAHWEH é o nome da Divindade expressa no Antigo Testamento do Livro Sagrado. Para o alquimista IAHWEH redime e purifica pelo fogo sagrado, daqueles que passaram pela calcinatio: "Não temas, porque eu te resgatei, eu te chamei pelo teu nome, és meu. Quando passares pelo mar, estarei contigo; quando passares pelos rios eles não te submergirão. Quando passares pelo fogo, a chama não te atingirá e não te queimarás. Pois eu sou IAHWEH, teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador.
O Juízo final pelo fogo corresponde à provação pelo que testa a pureza dos metais e lhes retira todas as impurezas. Há inúmeras passagens do Antigo Testamento que usam metáforas para descrever os testes que IAHWEH submete seu povo eleito. Por exemplo, IAHWEH diz: "Voltarei minha mão contra ti, purificarei as tuas escórias no cadinho, removerei todas as impurezas." (Isa., 1:24,25)
"E eis que te pus na fogueira como a prata, testando-te no cadinho da aflição. Por causa de mim mesmo e só por mim mesmo, agi - deveria meu nome ser profanado? Jamais darei minha glória a outro." (Isa.,48;10,11)
"Eu os levarei ao fogo, e os purificarei como se purifica a prata, e os testarei como se testa o ouro. Eles invocarão meu nome e eu escutarei, respondendo: Eis o meu povo; e todos dirão IAHWEH é meu Deus.” (Zacarias 13:9)
O fogo purifica e santifica a matéria bruta e corrompida, os maçons e alquimistas sabem disso, no entanto, o fogo da Senda Sinistra mata e regride a evolução que o ser procura na sua existência. Este fogo nada mais é do que a luxúria, a inveja e ira. Nesta categoria temos a ira que moveu Nabucodonosor, ao destruir o Templo de Salomão. Ele personifica o motivo do poder, a autoridade arbitrária do ego inflamado, que passa pela calcinatio quando suas pretensões irresistíveis são frustradas pela presença da autoridade transpessoal. Nabucodonosor corresponde ao rei alquímico, que serve de alimento ao lobo e depois é calcinado
Conclusão:
A Maçonaria e os maçons com as suas alegorias de construção, como ferramentas: trolha, esquadro, compasso, régua, maço, cinzel; materiais como tríplice argamassa, de forma alguma querem dar a entender que queiram construir algum prédio material - quando assim o querem contratam uma firma especializada - mas sim a construção de um Templo Espiritual à Divindade Maior, o Grande Arquiteto do Universo. É a procura do auto-conhecimento para purificar o ente de cada obreiro, e a partir daí construir a morada do Espírito Santo como falam os cristãos. Essa construção maçônica percorre vários patamares (Escada de Jacó) e à medida que o maçom vai galgando os seus degraus (os graus maçônicos) ele tem um compromisso com a Lei do Karma de estar mais santificado que no patamar anterior. Da mesma forma o alquimista no seu trabalho de manipulação das substâncias não quer dizer que ele queira conseguir ouro material. Alquimia é a ciência pela qual as coisas podem não ser decompostas e recompostas (como se faz em química), mas também sua natureza essencial pode ser transformada e elevada ao mais alto grau ou ser transmutada em outra.
A química trata apenas da matéria morta, enquanto a Alquimia emprega a vida como fator. Todas as coisas têm natureza tríplice, da qual sua forma material e objetiva é sua manifestação inferior. Assim é que, por exemplo, há ouro espiritual, imaterial; ouro astral etéreo, fluído e invisível, e ouro terrestre, sólido, material e visível. Os dois primeiros são, digamos assim, o espírito e a alma do último e, empregando os poderes espirituais da alma, podemos produzir mudanças nele, a fim de que se, tornem visíveis no estado objetivo.
Certas manifestações exteriores podem ajudar aos poderes da alma em sua operação. Porém, sem os segundos, as manipulações serão totalmente inúteis. Portanto, os procedimentos alquímicos podem ser utilizados com êxito unicamente por aquele que é o alquimista nato ou por educação. Sendo todas as coisas de natureza tríplice, a Alquimia também apresenta um aspecto triplo. No aspecto superior, ensina a regeneração do homem espiritual, a purificação da mente e da vontade, o enobrecimento de todas as faculdades anímicas. No aspecto mais inferior trata das substâncias físicas e, abandonando o reino da alma viva e desvenda matéria morta. Termina na química de nossos dias. A Alquimia é um exercício do poder mágico da livre vontade espiritual do homem e, por esta razão, pode ser praticada apenas por aqueles que renascem espiritualmente.
Por último, passarei a palavra final aos alquimistas, ao citar, in toto, seu texto mais sagrado. A Tábua da Esmeralda de Hermes. Via-se esse texto “como uma espécie de revelação sobrenatural aos filhos de Hermes, feita pelo patrono e sua Divina Arte”. De acordo com a lenda, a tábua da Esmeralda foi encontrada no túmulo de Hermes Trismegistus, por Alexandre o Grande, ou, em outra versão, por Sara, a esposa de Abraão. A princípio, só se conhecia o texto em latim, mas, em 1923, Holmyard descobriu uma versão árabe. É provável que um texto anterior tenha sido escrito em grego e, segundo Jung tinha origem alexandrina. Os alquimistas o tratavam com veneração ímpar, gravando suas afirmativas nas paredes do laboratório e citando-o constantemente em seus trabalhos. Trata-se do epítome críptico da opus alquímica, uma receita para segunda criação do mundo, o unus mundus
A TÁBUA DA ESMERALDA DE HERMES
1. Verdadeiro, sem enganos, certo e digníssimo de crédito.
2. Aquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima, e àquilo que está em cima é igual àquilo que está em baixo, para realizar os milagres de uma só coisa.
3. E, assim como todas as coisas se originam de uma só, pela mediação dessa coisa, assim também todas as coisas vieram dessa coisa, por meio da adaptação.
4. Seu pai é o sol; sua mãe, a lua; o vento a carregou em seu ventre; sua ama é a terra.
5. Eis o pai de tudo, a complementação de todo o mundo.
6. Sua força é completa se for voltada para dentro (ou na direção) da terra.
7. Separa a terra do fogo, o sutil do denso, com delicadeza e com grande ingenuidade.
8. Ela ascendeu da terra para o céu, e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está embaixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.
9. Eis o forte poder da força absoluta; porque ela vence toda coisa sutil e penetra todo sólido.
10. E assim o mundo foi criado.
11. Daqui as prodigiosas adaptações, à feição das quais ela é.
12. E assim sou chamado HERMES TRISMEGISTUS, tendo as três partes da filosofia de todo o mundo.
13. Aquilo que eu disse acerca da operação do sol está terminado.
domingo, 15 de abril de 2012
O Misticismo Alquímico
Poucos foram os alquimistas que conseguiram atingir o nível da "Grande Obra", como é chamada a fase final do processo alquímico. A razão disto se prende às tremendas dificuldades encontradas na interpretação dos textos dos manuscritos, além daqueles inerentes ao processo em si que é extremamente moroso.
A interpretação dos textos é muito difícil porque os manuscritos foram todos escritos em linguagem velada, grande parte criptografada cabalisticamente.
Como em toda "ciência oculta" também na Alquimia os verdadeiros "adeptos" usaram uma forma de linguagem cifrada. Muitas vezes foi empregada a linguagem dos símbolos tornando assim ininteligíveis os manuscritos para os profanos por não disporem das "chaves" interpretativas.
Por serem escritos em linguagem velada os manuscritos alquímicos somente foram interpretados corretamente por poucos. Certos trechos das "vias alquímicas" somente um autêntico "adepto" tem condições de penetrá-los. Para um "adepto" é crime grave revelar claramente o grande segredo, exceto para uma pessoa que haja conquistado esse direito.
O candidato a "adepto", primeiro tem que decifrar os símbolos e a linguagem empregada para depois se lançar no trabalho propriamente, o qual exige uma paciência tremenda.
Muitos manuscritos foram redigidos em formas de linguagem cabalística, como dissemos, especialmente na forma Guimetria. Na língua Hebraica as letras têm valores numéricos que somados dão valores, também assim são as palavras. A Guimetria consiste da substituição de uma palavra por outra de igual valor numérico. Exemplo: A palavra U.R.S.S. tem o mesmo valor numérico da palavra SIRIA em hebraico. Desta maneira num escrito onde haja a palavras U.R.S.S. esta pode ser substituída por SIRIA. Utilizando-se este processo uma frase se torna um autêntico criptograma indecifrável para os não iniciados, ou peritos qualificados.
Outro processo, outra forma de registro utilizada pelos alquimistas foi o Notaricon. Este processo também é cabalístico e consiste em formar palavras com as primeiras letras de um nome e as últimas de outro, de um modo tal que somente para quem conheça a "chave" do processo é que o texto se torna claro.
Outras vezes os segredos são velados através de uma estória simples com duplo sentido, um dos quais somente pode ser interpretado por uns poucos elementos altamente dedicados. Somente esses laboriosos neófitos acabam por descobrir as "chaves" da interpretação. Este é o caso de um manuscrito de Philaléthe que tantos curiosos tentam compreender "A ENTRADA ABERTA AO PALÁCIO FECHADO DO REI".
Envolvendo coisas como a fabricação barata de ouro é natural que a Alquimia fosse uma arte muito cobiçada, combatida, e posta em dúvidas, mesmo pelos "adeptos" neste caso com a finalidade de afastar curiosos indesejáveis. A cobiça desenfreada e as consequências funestas que poderiam advir do domínio da Arte Sagrada se caísse mãos de inescrupulosos, fez com que os adeptos ao escreverem os métodos das deferentes vias o fizessem de uma forma que somente uns poucos indivíduos de grande perseverança e dedicação conseguissem dar continuidade indispensável àquela ciência. Foram exatamente as tremendas dificuldades que fez com que outra face da Alquimia fosse revelada, é o que veremos nesta palestra.
A maioria dos alquimistas indubitavelmente procurou a riqueza fácil graças à possibilidade da transformação do mercúrio em ouro, porém podemos afirmar que nenhum dos que assim pensou chegou à Grande Obra. Nenhum mero "curioso" se tornou "adepto". Quando muito chegaram à uma condição denominada de "soprador", como eram denominados muitos daquelas que se lançavam na pesquisa alquímica.
A luta encetada por um alquimista era, sem dúvidas, tremenda. Noites após noites na solidão de seus elementares laboratórios tentando com uma paciência de Jó atingir a Grande Obra. Repetiam seguidamente o mesmo processo meses e anos a fio. Naquela solidão o alquimista começava a evidenciar em si uma transformação lenta, porém progressiva, não só material, mas especialmente no mais íntimo do seu ser. Passo a passo, sem perceber ele ia conseguindo certa clareza mental. Nele ia despertando a Consciência Divina que reside em cada ser, objetivo máximo de todas as criaturas.
A Grande Obra surgia somente depois de muitos anos de tentativas, de concentração e de visualização. Aquele trabalho solitário acabava desenvolvendo as percepções superiores do alquimista. Depois de certo tempo de concentração e de dedicação iam-se abrindo as portas da percepção. Não apenas ao alquimista descobria os princípios básicos da transmutação dos metais, mas o que era mais fabuloso, conseguia transmutar a sua própria natureza.
É possível que o alquimista não descobrisse em princípio como transformar um metal comum em ouro por alteração da matéria provocada pelos sucessivos processos alquímicos. Não seria a transmutação provocada pelas passagens da substância por processos físicos. É possível que a mistura apenas funcionasse como um "suporte mágico" para a mente de o alquimista operar. Neste caso a mente sofreria uma abertura com a possibilidade de ação diretamente na vibração dos campos de energia constitutivo das partículas. A mente do alquimista era disciplinada a um ponto tal que se tornava capaz de provocar interferências vibratórias a um nível mais profundo do que o das partículas atômicas, e assim dirigidas pela Consciência Cósmica presente nela promoveria a transmutação.
O que acontecia de fabuloso era que abertas as portas das percepções do alquimista, antes mesmo da matéria sobre a qual operava sobre qualquer processo transmutatório, ele despertasse para uma condição mística profunda em que uma nova escala de valores surgia diante de si. Naquela luta incessante e dedicada, quando certo alquimista atingia a consecução da Grande Obra ele já não tinha a cobiça do valor pecuniário quanto no início, porque para ele a maior riqueza não era mais a do ouro, ele compreendia que a transmutação operada em seu âmago era muito mais valiosa do que aquela operada no metal. Para ele a maior riqueza passava a ser não aquela que o ouro era capaz de proporcionar mas aquela que se manifestava ao nível da sua natureza intrínseca. Quando surge a grande transformação alquímica da alma, tudo o mais se torna em importância.
Assim operava-se no alquimista a morte mística. A morte do ser preso às coisas materiais para um renascer de esplendor místico. Então é fácil compreender porque o laboratório alquímico se tornava um "sanctum", uma espécie de templo pessoal.
Eis porque Thomaz de Aquino disse na sua obra “Aurora Consurgens":
“A ALQUIMIA É O CAMINHO VERDADEIRO DA GLÓRIA DE DEUS".
Por tudo isto os "adeptos" autênticos jamais revelaram publicamente os segredos de sua obra.
Demonstravam-na algumas vezes, como aquele que visitou Van Helmont e Helvecius, mas nunca lhes ensinaram direta e claramente como conseguir a Grande Obra. Igualmente em decorrência da transmutação alquímica operada no ser nenhum adepto jamais fez uso indevido dos frutos de seu trabalho.
Muitos alquimistas deixaram escrito o processo, porém sob a forma de linguagem cifrada, de criptogramas, afim de que somente atingisse o alvo aqueles que tivessem a necessária perseverança durante tempo necessário para que antes ocorresse neles a transmutação interior; que primeiramente houvesse o despertar da Consciência em seu ser.
Outro ponto que ainda não nos referimos diz respeito ao "ELIXIR DA LONGA VIDA". Seria um dos frutos finais da Grande Obra, um produto capaz de prolongar de forma marcante, além de sanar todas as enfermidades. Mais uma vez a alquimia mística; este nível quando era atingido o adepto já chegara à fase final do trabalho alquímico quando para ele a vida física já não tinha aquele mesmo sentido de antes, ela era importante apenas como um meio para o desenvolvimento espiritual.
Como se pode ver, havia por trás da Alquimia coisas que a levaram a ser utilizada como um processo místico para o despertar da Consciência maior.
A Alquimia funcionava como um dos sistemas capaz de alterar a vibração da mente e consequentemente para penetrar em outras realidades, em outros universos relativos, tal como nos demais sistemas místicos e mágico-religiosos.
Há por detrás da Alquimia uma profunda possibilidade de um despertar para as verdades maiores, razão pela qual ela logo foi utilizada como filosofia capaz de despertar condições metafísicas maravilhosas. Estribado nesta filosofia foram criadas as “Sociedades Secretas Alquímicas" na Europa. Durante muito tempo aquelas sociedades fraternas foram independentes, porém depois do Século XIV os alquimistas seriam geralmente ligados a outros sistemas místicos, muitos deles foram dirigentes de ordens Iniciáticas. No século XII quase todos os alquimistas eram Hermetistas especialmente Rosacruzes.
Escrito por JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO
A interpretação dos textos é muito difícil porque os manuscritos foram todos escritos em linguagem velada, grande parte criptografada cabalisticamente.
Como em toda "ciência oculta" também na Alquimia os verdadeiros "adeptos" usaram uma forma de linguagem cifrada. Muitas vezes foi empregada a linguagem dos símbolos tornando assim ininteligíveis os manuscritos para os profanos por não disporem das "chaves" interpretativas.
Por serem escritos em linguagem velada os manuscritos alquímicos somente foram interpretados corretamente por poucos. Certos trechos das "vias alquímicas" somente um autêntico "adepto" tem condições de penetrá-los. Para um "adepto" é crime grave revelar claramente o grande segredo, exceto para uma pessoa que haja conquistado esse direito.
O candidato a "adepto", primeiro tem que decifrar os símbolos e a linguagem empregada para depois se lançar no trabalho propriamente, o qual exige uma paciência tremenda.
Muitos manuscritos foram redigidos em formas de linguagem cabalística, como dissemos, especialmente na forma Guimetria. Na língua Hebraica as letras têm valores numéricos que somados dão valores, também assim são as palavras. A Guimetria consiste da substituição de uma palavra por outra de igual valor numérico. Exemplo: A palavra U.R.S.S. tem o mesmo valor numérico da palavra SIRIA em hebraico. Desta maneira num escrito onde haja a palavras U.R.S.S. esta pode ser substituída por SIRIA. Utilizando-se este processo uma frase se torna um autêntico criptograma indecifrável para os não iniciados, ou peritos qualificados.
Outro processo, outra forma de registro utilizada pelos alquimistas foi o Notaricon. Este processo também é cabalístico e consiste em formar palavras com as primeiras letras de um nome e as últimas de outro, de um modo tal que somente para quem conheça a "chave" do processo é que o texto se torna claro.
Outras vezes os segredos são velados através de uma estória simples com duplo sentido, um dos quais somente pode ser interpretado por uns poucos elementos altamente dedicados. Somente esses laboriosos neófitos acabam por descobrir as "chaves" da interpretação. Este é o caso de um manuscrito de Philaléthe que tantos curiosos tentam compreender "A ENTRADA ABERTA AO PALÁCIO FECHADO DO REI".
Envolvendo coisas como a fabricação barata de ouro é natural que a Alquimia fosse uma arte muito cobiçada, combatida, e posta em dúvidas, mesmo pelos "adeptos" neste caso com a finalidade de afastar curiosos indesejáveis. A cobiça desenfreada e as consequências funestas que poderiam advir do domínio da Arte Sagrada se caísse mãos de inescrupulosos, fez com que os adeptos ao escreverem os métodos das deferentes vias o fizessem de uma forma que somente uns poucos indivíduos de grande perseverança e dedicação conseguissem dar continuidade indispensável àquela ciência. Foram exatamente as tremendas dificuldades que fez com que outra face da Alquimia fosse revelada, é o que veremos nesta palestra.
A maioria dos alquimistas indubitavelmente procurou a riqueza fácil graças à possibilidade da transformação do mercúrio em ouro, porém podemos afirmar que nenhum dos que assim pensou chegou à Grande Obra. Nenhum mero "curioso" se tornou "adepto". Quando muito chegaram à uma condição denominada de "soprador", como eram denominados muitos daquelas que se lançavam na pesquisa alquímica.
A luta encetada por um alquimista era, sem dúvidas, tremenda. Noites após noites na solidão de seus elementares laboratórios tentando com uma paciência de Jó atingir a Grande Obra. Repetiam seguidamente o mesmo processo meses e anos a fio. Naquela solidão o alquimista começava a evidenciar em si uma transformação lenta, porém progressiva, não só material, mas especialmente no mais íntimo do seu ser. Passo a passo, sem perceber ele ia conseguindo certa clareza mental. Nele ia despertando a Consciência Divina que reside em cada ser, objetivo máximo de todas as criaturas.
A Grande Obra surgia somente depois de muitos anos de tentativas, de concentração e de visualização. Aquele trabalho solitário acabava desenvolvendo as percepções superiores do alquimista. Depois de certo tempo de concentração e de dedicação iam-se abrindo as portas da percepção. Não apenas ao alquimista descobria os princípios básicos da transmutação dos metais, mas o que era mais fabuloso, conseguia transmutar a sua própria natureza.
É possível que o alquimista não descobrisse em princípio como transformar um metal comum em ouro por alteração da matéria provocada pelos sucessivos processos alquímicos. Não seria a transmutação provocada pelas passagens da substância por processos físicos. É possível que a mistura apenas funcionasse como um "suporte mágico" para a mente de o alquimista operar. Neste caso a mente sofreria uma abertura com a possibilidade de ação diretamente na vibração dos campos de energia constitutivo das partículas. A mente do alquimista era disciplinada a um ponto tal que se tornava capaz de provocar interferências vibratórias a um nível mais profundo do que o das partículas atômicas, e assim dirigidas pela Consciência Cósmica presente nela promoveria a transmutação.
O que acontecia de fabuloso era que abertas as portas das percepções do alquimista, antes mesmo da matéria sobre a qual operava sobre qualquer processo transmutatório, ele despertasse para uma condição mística profunda em que uma nova escala de valores surgia diante de si. Naquela luta incessante e dedicada, quando certo alquimista atingia a consecução da Grande Obra ele já não tinha a cobiça do valor pecuniário quanto no início, porque para ele a maior riqueza não era mais a do ouro, ele compreendia que a transmutação operada em seu âmago era muito mais valiosa do que aquela operada no metal. Para ele a maior riqueza passava a ser não aquela que o ouro era capaz de proporcionar mas aquela que se manifestava ao nível da sua natureza intrínseca. Quando surge a grande transformação alquímica da alma, tudo o mais se torna em importância.
Assim operava-se no alquimista a morte mística. A morte do ser preso às coisas materiais para um renascer de esplendor místico. Então é fácil compreender porque o laboratório alquímico se tornava um "sanctum", uma espécie de templo pessoal.
Eis porque Thomaz de Aquino disse na sua obra “Aurora Consurgens":
“A ALQUIMIA É O CAMINHO VERDADEIRO DA GLÓRIA DE DEUS".
Por tudo isto os "adeptos" autênticos jamais revelaram publicamente os segredos de sua obra.
Demonstravam-na algumas vezes, como aquele que visitou Van Helmont e Helvecius, mas nunca lhes ensinaram direta e claramente como conseguir a Grande Obra. Igualmente em decorrência da transmutação alquímica operada no ser nenhum adepto jamais fez uso indevido dos frutos de seu trabalho.
Muitos alquimistas deixaram escrito o processo, porém sob a forma de linguagem cifrada, de criptogramas, afim de que somente atingisse o alvo aqueles que tivessem a necessária perseverança durante tempo necessário para que antes ocorresse neles a transmutação interior; que primeiramente houvesse o despertar da Consciência em seu ser.
Outro ponto que ainda não nos referimos diz respeito ao "ELIXIR DA LONGA VIDA". Seria um dos frutos finais da Grande Obra, um produto capaz de prolongar de forma marcante, além de sanar todas as enfermidades. Mais uma vez a alquimia mística; este nível quando era atingido o adepto já chegara à fase final do trabalho alquímico quando para ele a vida física já não tinha aquele mesmo sentido de antes, ela era importante apenas como um meio para o desenvolvimento espiritual.
Como se pode ver, havia por trás da Alquimia coisas que a levaram a ser utilizada como um processo místico para o despertar da Consciência maior.
A Alquimia funcionava como um dos sistemas capaz de alterar a vibração da mente e consequentemente para penetrar em outras realidades, em outros universos relativos, tal como nos demais sistemas místicos e mágico-religiosos.
Há por detrás da Alquimia uma profunda possibilidade de um despertar para as verdades maiores, razão pela qual ela logo foi utilizada como filosofia capaz de despertar condições metafísicas maravilhosas. Estribado nesta filosofia foram criadas as “Sociedades Secretas Alquímicas" na Europa. Durante muito tempo aquelas sociedades fraternas foram independentes, porém depois do Século XIV os alquimistas seriam geralmente ligados a outros sistemas místicos, muitos deles foram dirigentes de ordens Iniciáticas. No século XII quase todos os alquimistas eram Hermetistas especialmente Rosacruzes.
Escrito por JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO
Símbolos Perenes e Transformação Pessoal
A Alquimia foi sempre, essencialmente, um universo prático. O século XIX é um século de transição, e embora houvesse quem praticasse alquimia numa filiação operativa, ainda no início do século XX, a alquimia começa a ser matéria especulativa. As pessoas começam a pensar o que é a alquimia, mas é evidente que isso só demonstra que os alquimistas, tal como eram conhecidos até meados do século XIX, já tinham desaparecido. Nessa altura, só raríssimos alquimistas, ou hermetistas, na Europa, podiam continuar a transmitir um saber coerente em relação a textos originais, garantindo uma linha de transmissão relativamente à tradição europeia da alquimia.
A questão é tanto mais complicada, quando hoje se sabe que a alquimia não é um fenômeno europeu. Quando pensamos na alquimia, tendemos a pensar naqueles sábios de barbas à volta de uma série de instrumentos de vidro, a destilar substâncias estranhas, em busca da Pedra Filosofal. Aliás, no século XVIII e XIX, alguns pintores resolveram imaginar como seria o laboratório de um alquimista. Mais ou menos inspirados no progresso da química, fantasiaram o laboratório do alquimista como uma sala cheia de plantas penduradas, esqueletos, muitas retortas e destiladores, e o alquimista aparecia com um ar alucinado, a ver se a pedra filosofal saía dali. Nessa época, as pessoas achavam que o alquimista era mais ou menos um químico, mais ou menos alucinado, que andava à procura, dentro da retorta, de um mito mais ou menos irrealizável. A partir de Lavoisier, resolveu-se dizer que a alquimia era uma fábula, vinda sobretudo da tradição dos metalúrgicos antigos, isto é, dos primórdios da pré-história da química, tanto no Ocidente com no Próximo Oriente, como era o caso do Egipto. Mas também se sabe que as civilizações do Mediterrâneo, da China e da Índia, foram civilizações de grandes químicos, desde pelo menos há dois ou três mil anos. Elas produziam algo que foi, e é, equivalente à nossa tradição química ocidental, no sentido científico do termo. Nos séculos XVIII-XIX, quando surge a imagem do laboratório do alquimista, começa a haver a primeira preocupação dos estudiosos sobre como seria, de facto, o laboratório do alquimista. É evidente que quem assim o concebe, um laboratório fabuloso e imaginário, nunca viu um laboratório de alquimista. De facto, esse laboratório nunca foi nada do que foi descrito pelo imaginário da época.
Porque é alguém resolvia praticar alquimia ? Qual era o fascínio e a tentação ? Na Idade Média, havia reações contraditórias face à alquimia, à astrologia e disciplinas afins. Por um lado, havia o receio dessas disciplinas, que vinham do passado, da Antiguidade Clássica, serem uma ameaça aos princípios da teologia cristã, católica, porque essas disciplinas eram consideradas uma espécie de reminiscência pré-cristã, pagã, que vinham perturbar a ordem estabelecida. Graças a S. Tomás de Aquino, e outros, fora construído num edifício pré-estabelecido de relacionamento do Homem com Deus e com a Natureza, achando-se que esses modelos e paradigmas de interpretação do mundo, e da relação do homem como universo, que vinham da Antiguidade, traziam instabilidade à fé cristã e aos seus crentes e praticantes. A Igreja dividiu-se sempre entre uma igreja culta, um sector minoritário, que olhava para esses saberes, como saberes que podiam ser integrados dentro do universo cristão, e outro sector, bastante mais conservador, aterrorizado com qualquer perturbação do sistema, que resolveu renegar a alquimia, a astrologia, a prática do hermetismo em geral, e que vinham de um substrato popular de raiz não erudita . A cabala judaica na Europa, a alquimia, a astrologia eram práticas muito hostilizadas pelo sector mais conservador da Igreja de Roma. Muita coisa foi destruída nessa guerra contra a heresia.
No Ocidente, a primeira transmissão de tratados de alquimia chegou por mãos árabes. Há aqui duas correntes : uma, que vem do Oriente, pelo interior da Europa ; outra, que também vem do Oriente, no sentido de que a luz vem do Oriente, por via da cultura árabe. Foram os árabes que começaram a traduzir, não só as obras dos alquimistas árabes, mas sobretudo dos gregos – e nem se supunha que tivesse havido alquimistas na Grécia. É claro que existem imensos manuscritos, e uma tradição alquímica que chegou aos árabes graças a gerações e gerações de pessoas que foram reescrevendo e copiando os manuscritos e textos originais. Foi graças a gerações sucessivas, abarcando pelo menos dois mil anos de cultura, que muitos textos foram reproduzidos. Eram elementos de inspiração para aqueles que queriam abordar, pela primeira vez, a alquimia, ou para os que se sentiam fascinados, ou chamados, por esse saber estranho, a alquimia, que estabelecia uma espécie de relação física e orgânica entre o Homem e o Universo.
As grandes religiões defendiam que existe um mundo natural e outro sobrenatural. Ora, a alquimia, tal como a tradição hermética, diz que não há dissociação entre o “mundo natural” e o “mundo supranatural” ; não existe divisão entre espírito e matéria. Para as religiões tradicionais, nomeadamente o cristianismo, este postulado é uma autêntica subversão. Uma disciplina que vem dizer que “podemos provar fisicamente que não existe diferença entre espírito e matéria” é a maior das heresias. É evidente que para os alquimistas de filiação tradicional, o primeiro passo da sua auto-iniciação, era provar a si próprios, não apenas no domínio da sua própria consciência e do seu próprio ser, mas também no laboratório, no domínio físico, que espírito e matéria são indissociáveis, que natureza, espírito e matéria não são dissociáveis.
Qual é, então, o fascínio que a alquimia exerce sobre pessoas tão inteligentes, ao longo dos tempos ? Reis, príncipes, cardeais, nobres, burgueses e tantos outros, sentiram-se fascinados ou chamados a ela. Aceitaram o desafio de provar que, não só no seu próprio campo de consciência, não havia divisão entre espírito e matéria, entre consciência e mundo, entre consciência e natureza, como também fisicamente, na natureza, não havia divisão entre espírito e matéria, ou seja, o espírito e a matéria eram indivisíveis na própria natureza.
As religiões tradicionais, nomeadamente a tradição judaico-cristã, afirmavam que Deus criou o mundo em sete dias, depois deixou-o à sua sorte, ficando no céu a ver o espectáculo da criação. As teologias tradicionais separam o que é divino do que é mundano, o sagrado do profano – e toda a economia religiosa gira em torno desta separação. Separando o divino do não divino, o sagrado e o profano, é evidente que estão criados os ingredientes fundamentais da velha problemática do bem e do mal. As religiões precisam de uma separação entre consciência e corpo, no homem, entre espírito e matéria na natureza, para poderem desenvolver uma teologia do bem e do mal. Só numa perspectiva dualista, de divisão, é que se pode estabelecer uma teologia do bem e do mal. Mas se se considerar um modelo monista, integral, de que a consciência e o mundo, espírito e matéria, estão intrinsecamente integrados e são um só, obviamente não se pode estabelecer uma teologia do bem e do mal.
A alquimia punha, à partida, este desafio : todos nós fomos educados na teologia do bem e do mal, da culpa e da redenção, todos nós fomos sobrecarregados com este fardo desde que nascemos, como é podemos resolver o problema de outra maneira ? Este desafio encontra-se também na alquimia hindu, de tradição védica, na alquimia chinesa, onde os alquimistas mais conhecidos são os taoístas, os “monistas” da China, que acreditam na unidade entre espírito e matéria, consciência e corpo, no homem, numa unidade psico-somática.
A alquimia é um saber transmitido oralmente, de boca a ouvido, de mestre a discípulo. Quando, nas várias civilizações e tradições, se encontram textos escritos de alquimia é porque se está perante um saber de transmissão oral que se está a perder e, como tal, os últimos detentores desse saber passam-no a escrito, para que ele não se perca definitivamente. Uma forma de “escrita” empregue no Ocidente tem a ver com a construção das catedrais. A catedral era um convite ao cidadão da rua a conviver com o sagrado, pois seduzia com a sua monumentalidade e pela liturgia simbólica. As pessoas olhavam e achavam que havia ali um mistério. Estes monumentos de pedra, uma verdadeira consagração aos mistérios da divindade, são construções que sobem da terra ao céu, são uma espécie de explosão de inspiração em pedra. Nas primeiras catedrais, como Notre Dame e Chartres, entre outras, encontra-se pela primeira vez toda a tradição da alquimia gravada em pedra. A Catedral de Notre Dame, desde o portal, passando pela estrutura lateral até ao interior, é, toda ela, um manual prático da alquimia. É por isso que Notre Dame, construída nos séculos XIII-XIV, começou a ser um ponto de peregrinação para todos aqueles que procuravam redescobrir os grandes símbolos da alquimia, enquanto técnica operativa. Há uma quantidade razoável de manuscritos, a partir dos séculos XVII-XVIII, que descrevem em pormenor como é cada símbolo corresponde à visão, às técnicas e à operacionalidade da alquimia. Quando um saber como o da alquimia é gravado em pedra, é sinal que havia uma tradição que estava a morrer e em vias de se perder. Curiosamente, a maçonaria surge na Europa, com grande vivacidade, nos séculos XVII e XVIII, reivindicando-se justamente daquela elite de arquitectos iluminados que construíram as catedrais, ou seja, das guildas de construtores de catedrais – os pedreiros-livres, que vinham da tradição dos grandes artesãos da Idade Média, e que tinham uma imensa liberdade em recriar o seu trabalho e de introduzir elementos de criação, numa época em que a criação não era muito bem vinda, sobretudo no universo das representações dos mistérios divinos. No que se refere à tradição dos pedreiros-livres, que surge com grande vigor no século XVIII, fazem-se ainda descobertas notáveis. Em livros ilustrados do século XVIII , vê-se como a decoração de algumas lojas maçônicas recuperam os símbolos da tradição alquímica.
Encontramos a alquimia na China, na Índia, na Mesopotâmia, no Egipto, na tradição judaica. Encontramos alquimia em todas as grandes tradições, justamente porque a alquimia representava esse desafio “herético”, é uma provocação à cultura dualista de cada época. As grandes religiões e o poder instituído diziam que existia um poder no alto, que é diferente dos que estão em baixo ; existe um poder no alto que é Deus, e em baixo existe a natureza ; existe um poder no alto que é o espírito, em embaixo existe a matéria ; existe um demiurgo em cima, e o resto é criação. Não é por acaso que este tipo de pensamento é o sustentáculo dos poderes instituídos, exatamente porque cria a divisão nas sociedades. Na Índia, por exemplo, a sociedade está dividida em castas – uma verdadeira discriminação social e manutenção de privilégios, baseada no princípio quaternário, o dos quatro elementos. O algarismo 4 é o número do quadrado que representa a divisão natural do mundo criado. Se há imagem que representa o mundo criado, ou a estrutura organizada do universo, é o quadrado. Por outro lado, a dinâmica da consciência é representada pelo círculo. A relação entre consciência e o mundo, entre Deus e a Natureza, entre mente e corpo, era representada justamente por estes dois princípios : o círculo e o quadrado.
Diz-se que o alquimista não inventa rigorosamente nada, limita-se a seguir os passos da natureza. O alquimista é um imitador da natureza, um fiel “imitador da natureza”. A alquimia surge, em qualquer época e civilização, como uma ajuda, na observação atenta do que se passa na natureza. E a primeira observação tem a ver como é que se consegue, por meios simples, provar que, na natureza, não é possível separar o espírito da matéria. Em nós, observamos um “eu”, entidade mental e afetiva, e o corpo. O corpo é matéria, é criação, é natureza. Mas prezamos acima de tudo o “eu”, que não é igual a Deus. Eu não sou Deus, não sou Natureza, mas sou um pequeno “eu”, ou consciência psicológica, um “euzinho” que aspira a ser Deus, mas carece de asas para lá chegar, e que tem a pretensão de conhecer a natureza. O “eu, a consciência psicológica, é uma entidade altamente frustrada, que não consegue compreender nem os mistérios de Deus nem os mistérios da Natureza. Por definição, o essencial escapa à consciência psicológica.
O alquimista segue os passos da Natureza, tantas vezes representada por deusas da fecundidade, do princípio da criação, das coisas fecundas, da reprodução generosa, da multiplicidade. A natureza não é apenas sagrada, mas também generosa. Essas deusas representam a Primavera, e o que faz o alquimista atrás da Primavera ? O alquimista quer saber como é que a natureza se reproduz, essa é a primeira curiosidade do alquimista, saber como as coisas se reproduzem. A natureza não constrói as coisas de qualquer maneira, ela germina segundo determinados padrões. O alquimista tinha de ver como é que a natureza, e tudo à sua volta, se reproduz. Isto tem a ver com outra função do alquimista, que era a preocupação com a origem e reprodução do ser humano em laboratório. Era a velho teoria do homúnculo, hoje em dia glosada com a reprodução “in vitro” e a clonagem, entre outras, que eram velhos sonhos dos alquimistas. Conhecer as leis da criação do humano, do vegetal, do animal, de qualquer coisa ; conhecer como é que as coisas são criadas. Será que o ser humano pode aprender as leis da criação, aprendendo como o Criador cria ? Na alquimia taoísta, na China, na alquimia egípcia, e em todo o lado, os alquimistas têm uma espécie de simbólica, um pacto fundamental do mistério da alquimia, que é a criação do ser em laboratório. Mas afinal, o que queriam os alquimistas ? Queriam conhecer e compreender as leis da criação, reproduzir os métodos do Criador, queriam o segredo de um princípio gerador. E que princípio era esse ?
Para o alquimista a natureza é uma estrutura orgânica, uma estrutura viva, quer se trate de uma pedra ou de um planeta. De acordo com a visão do alquimista, uma pedra é parte do mistério da consciência, do mistério da vida. Ou seja, aquela linha que divide e separa o vegetal do animal, ou do mineral, não existe na alquimia. No pensamento tradicional da alquimia não existe a divisão entre orgânico e inorgânico, eliminando assim qualquer contradição entre eles. Nesta visão, existe um elemento comum orgânico e inorgânico. No pensamento alquímico, uma pedra não é orgânica nem inorgânica, é outra coisa. Habituados que estamos em raciocinar em termos de hemisfério direito e esquerdo, perdemos de vista que laboramos na base de uma estrutura dualista de pensamento. Qualquer informação que vem pelos sentidos é imediatamente processada como dualidade.
É possível provar que Deus e a Natureza são uma e a mesma coisa, e são inseparáveis. Deus não descansou ao sétimo dia. Tudo aquilo que a consciência criou, nela ficou intrinsecamente implicada, nessa criação. O criador não criou a natureza e separou-se dela. O criador e a natureza são uma e a mesma coisa. A consciência e o mundo são uma e mesma coisa. A proposta da alquimia é descobrir, por meios materiais, por meio do laboratório, por meio da experimentação, a comprovação desse mistério, que é aquilo que tradicionalmente se chama a Pedra Filosofal – a comprovação em laboratório de que o criador e a criação são inseparáveis.
O equinócio da Primavera, que é celebrado na Páscoa, assinala o mistério da morte e ressurreição, uma ressurreição gloriosa. Na Primavera, há três meses chamados “meses equinociais”. Todos os alquimistas sabiam que a partir da divisão do ano em equinócios e solstícios, era possível imitar a natureza. O que é que acontece na Primavera ? Existe um ímpeto irresistível de reprodução das espécies. No final do Inverno, as sementes começam a germinar e, na Primavera, há uma verdadeira explosão de matéria verde. Os animais, em geral, começam o seu ciclo de reprodução. Muitas vezes, os seres humanos são arrastados nesse tipo de entusiasmo e também se lançam na aventura da reprodução. Na Primavera, a biologia está muito mais ativa – é como se houvesse uma onda vital de fundo na natureza que percorre transversalmente toda a criação, todo o universo, todo o cosmos. A questão, para os alquimistas, era a seguinte : o que é que reproduz este ímpeto ? Porque é a natureza explode nesta espiral criativa ? Que força é esta, independente das explicações meteorológicas, do sol começar a subir cada vez mais no horizonte, dos dias irem ficando mais longos e quentes, até finalmente chegarmos ao dia mais longo do ano, quando o sol atinge o zênite, no solstício de Verão ? Os alquimistas viram que a Primavera representava algo extremamente importante : mas onde, na terra ou no céu ? Eles sabiam que a natureza, toda a atmosfera planetar, aquilo a que chamamos “a atmosfera respirável do planeta”, e não só, ficava saturada de um tipo de energia muito especial, que não ocorre em qualquer outra parte do ano. Há, com os equinócios e os solstícios, um ciclo, um pulsar do ano. É na Primavera que se manifesta esse princípio, que nos leva a perguntar : “Que princípio é esse que o demiurgo, que o criador, usou para criar e dar vida às coisas ? “. Os alquimistas disseram : “Esse mistério físico, químico, biológico, da criação pode ser descoberto na Primavera”. Como é que o alquimista resolve este mistério ? Os alquimistas diziam o seguinte : “Se, nos três meses da Primavera, a atmosfera do planeta fica saturada de um princípio vital, de um tipo completamente novo, que se reflete nessa explosão de criação a nível do planeta, sobretudo em determinadas latitudes, então, inventemos um suporte, uma espécie de acumulador de energia, que fique completamente saturado dessa energia. Inventemos um material acumulador, do tipo de uma pilha, que fique completamente carregado dessa energia”. Estes processos laboratoriais são os processos de saturação, que reforçam o princípio de saturação, até a matéria de base seja puramente transfigurada, se transforme naquele ponto em que espírito e matéria se revelam experimentalmente, em laboratório, como uma e a mesma coisa.
O que se passa na natureza, passa-se no homem, ou como dizia Hermes Trismegisto : “O que se passa em cima, passa-se me baixo ; o que está em cima, é como o que está em baixo”. Portanto, é estabelecendo uma relação de saber entre o céu e a terra, que as coisas se podem organizar num processo de transfiguração, e de experimentação de que espírito e matéria são indivisíveis, tanto no homem como na natureza. O princípio material transfigura-se na sua própria luz. Que princípio é esse ?
As gotas do céu, o orvalho, os elementos vitais do céu vão caindo sobre a terra, sobre a natureza, e vão tornando-a fecunda. Isto quer dizer que há um elemento de consciência no ser humano, algo no ser humano que torna fecundo o seu coração. E, desse princípio celeste, que é estranho às quatro estações, mas que age sobre elas ; caem gotinhas que tombam sobre o coração. O coração começa a brotar como se fosse uma semente, um bolbo, um elemento vegetal. Há um princípio de germinação, que uma vez tocado, e ao agir sobre o coração humano, provoca uma transformação no campo de consciência. Que coração é este ? Segundo a tradição, o coração é o órgão, um músculo com sístole e diástole. Se estou apaixonado, o coração aumenta o seu ritmo. Diz-se muitas : “Segue os ditames do coração”. Na tradição medieval e mesmo popular, “seguir os ditames do coração” significa que, quando tiveres medo, evita fazer qualquer coisa, porque o medo guarda a vinha. O barômetro cardíaco altera-se com uma enorme rapidez, na experiência das sensações. Portanto, tudo o que é informação visual, auditiva, cutânea, tudo são sensações ligadas à experiência dos sentidos altera o ritmo cardíaco. Na tradição alquímica, o coração era um órgão nobre, tanto biológica como fisiológica e organicamente. Mas, mais nobre é a função do órgão, ou seja, aquilo que está por detrás do órgão, aquilo que criou o órgão.
Esta perspectiva é muito interessante. Dizemos “nós vemos”. mas, nesta perspectiva, não é o olho que vê. Alguns alquimistas fizeram tratados extremamente importantes sobre a visão, nomeadamente sobre a percepção da cor. por exemplo o tratado de Goethe sobre a cor, e outros anteriores a ele. São os alquimistas que começam a fazer os primeiros ensaios sobre a percepção das cores. Fomos todos educados para dizer que é o olho que vê. Todo o sistema óptico, de facto, regista imagens, as sensações de imagens, ou seja, um conjunto de sensações sob a forma de imagens. Na audição, esse conjunto de sensações é transformado em estímulos auditivos. A visão transforma as sensações em imagens. E há órgãos especializados para esse fim. Na tradição alquímica isso não é verdade. O importante não é capacidade de olhar o mundo ; o importante é a capacidade de o ver. Ora, o órgão, o sistema de percepção, só é capaz de olhar, mas não é capaz de ver. A função cria o órgão, ela sim, ela é capaz de ver. É por isso que, no Oriente, se chamou a essa função que criou o órgão de visão “terceira visão” – não é igual aos dois olhos, mas forma um triângulo com eles. Na tradição alquímica, cada órgão humano estava ligado a um princípio planetar, a uma função. O fígado, por exemplo, estava ligado a Júpiter. Fígado em inglês diz-se “liver”, que tem a ver com o verbo “to live” – viver. Marte representou sempre no ser humano o princípio agressivo, de individuação, de distanciamento : “Eu aqui, tu aí!”. este princípio serve para criar a distância do “eu” relativamente ao mundo. O princípio jupiteriano tem a ver com a noção de compreensão do mundo, mesmo na tradição grega. Sob a influência dos romanos, todas estas noções adquiriram um outro sentido. A cultura romana é já uma cultura de plágio. Se o romano estava com maus fígados, só havia uma coisa a dizer :”Júpiter tinha maus fígados!”. Porquê ? Porque na tradição greco-romana, Júpiter era o deus do raio e da tempestade. Antes da tradição greco-romana, Júpiter era o princípio do raio, no sentido de que era o raio que criava uma ordem. Júpiter era aquele princípio que, no início dos tempos, pegava no caos, percorria o caos e instaurava-lhe uma ordem. Era um princípio ordenador. Portanto, esta noção de um impulso criador que ordena, que é típico de Júpiter, não pode ser confundida, mas os romanos confundiram-na com Marte. Na mitologia greco-romana, Marte tinha a função ligada á adrenalina, à força muscular e à agressividade. Cada órgão tem um princípio planetar na sua origem, e que o produz. Nesta perspectiva, há uma força, ma arquétipo, uma função ”marte” no cosmos que cria órgãos ou exprime no universo uma forma de estruturas que consubstanciam, organizam o princípio de separação, da força, da energia, da agressividade, e assim sucessivamente. Assim, quando os antigos falavam dos sete planetas sagrados, ou quando os alquimistas falavam dos sete metais sagrados, eles não falavam apenas para o nosso universo, mas para todo o universo. Essas sete forças existem em todo o universo – não são características do sistema solar, nem do planeta terra. Por isso, na tradição alquímica, quando falamos de coração, não é o coração-órgão, mas sim a função criadora, ou função organizadora que está por detrás do órgão do coração. Quando o coração aparece dividido em quatro câmaras, isso correspondia ás divisões do ciclo anual, na natureza. O coração possui dois momentos, ou movimentos : um corresponde á economia da morte, o outro ao renascimento, típico da simbólica da Páscoa. Por isso se diz que o processo da alquimia não é apenas um processo laboratorial, mas via usar o coração humano como recipiente, ou espaço de reprodução de todo o processo de laboratório. O “processo de laboratório” era uma metáfora aplicada ao ser humano, implicando os princípios Sol e Lua, e a relação entre eles. O Sol está assimilado ao Espírito Santo, e a Lua ao lado obscuro do coração. Na simbólica do ciclo do Graal, temos um cálice que recolhe o sangue de Cristo. A questão que se põe é : “Que sangue é esse que transfigura o coração ?”. Na alquimia passa-se a mesma coisa, há uma transfiguração, a “transmutação do coração” através de um princípio de mutação vindo da área da consciência, e não da natureza. Ou seja, não é possível realizar um processo de unificação da natureza sem que haja uma correlação com o princípio de unificação do indivíduo. Não há unificação do indivíduo sem uma correspondência com a experiência de unificação da natureza. No ser humano o coração é equivalente ao sol, o ser humano é representado como um pequeno universo. E é por isso que o coração é considerado órgão-rei, central, porque existe um sistema vital, um sistema funcional, não definível em termos de leis biológicas, que mantém o sistema em funcionamento.
Na natureza não existe um átomo, uma molécula, uma sub partícula atômica que não tenha o mesmo ritmo. Na natureza não existe nenhuma estrutura que não seja animada por um princípio organizador. A matéria não se encontra organizada segundo leis cegas, mas por princípios organizadores. Ao alquimistas definiam que, no ser humano, existe um conjunto de princípios organizadores, assimilados aos sete planetas tradicionais, que constituem as grandes leis do desenvolvimento humano. A estação ideal para esta constatação é a Primavera, o equinócio da Primavera. Está dito em todos os tratados de alquimia. Diz-se sempre que a obra física da alquimia começa na Primavera, na Páscoa, porque nesta época há uma nova aspiração para a transformação do campo de consciência, há um impulso que varre a natureza e nos arrasta, não somente em termos biológicos, mas sobretudo em termos de consciência. O alquimista, na proximidade de cada Primavera, sente a necessidade de se auto-realizar plenamente. A Primavera anuncia um ciclo de auto-transformação e, por conseguinte, o início do trabalho do alquimista, seja no laboratório, seja em si mesmo, começa, sob o impulso da natureza renovada, em termos de campo de consciência. De onde vem este princípio ? Se remontarmos ao Egipto, vemos que todas as divindades solares egípcias não têm qualquer relação com o coração, diretamente. Mas o gesto que fazem quando falam de consciência é o de abrir os braços em triângulo para o alto. E porquê ? Porque se sabia que a consciência é algo tangencial à estrutura do cérebro. Inicialmente, essa linha é tangencial. Depois, vai sendo cada vez mais integrada. Dir-se-ia que há a descida de um princípio de consciência ativo, que se chama “lótus de mil pétalas”, na tradição hindu, é a figuração de um centro piso-energético da consciência propriamente dita. E quando se criam as condições psicológicas, as chamadas “condições meditativas” da consciência psicológica, esse princípio – o chamado raio de Júpiter, reorganiza o ser humano, como se o ser humano fosse um caos inicial. Neste tipo de escola, parte-se do princípio que o ser humano, neste processo de iniciação é, à partida, um caos física e psicologicamente, e que este princípio de consciência vai organizar esse caos. Assim há a iniciação psicológica do ser humano até um determinado ponto, e quando esse ponto é atingido, é a ação da consciência propriamente dita que age, que atua e transforma.
Quais são as condições para a ação desse princípio de consciência no ser humano ? A experiência diz não ser possível ao ser humano, por iniciativa puramente psicológica, fazer um processo de mutação do seu campo de consciência, ou seja, transformar-se num ser humano a sério, passando de uma ser biológico para um ser humano real. A alquimia diz-nos que o ser humano pode evoluir em termos de civilização, indefinidamente. Simplesmente, o produto final será sempre idêntico no culminar de uma determinada civilização. Isto é, qualquer civilização produz um ser humano civilizado no seu culminar, mas em qualquer civilização é sempre igual à anterior. Acreditamos que o homem evolui através da sua experiência social e histórica, mas o ser humano que atinge o máximo das suas possibilidades evolutivas não vai mais adiante, no seu processo de humanização real. O ser humano pode ser uma espécie biológica avançada, que tem a capacidade de auto-aperfeiçoamento até um determinado nível, mas precisa de completar o trabalho da própria natureza, para ser realmente humano. A civilização é incapaz de levar este processo de desenvolvimento humano até à sua etapa final. É o próprio ser humano que vai ter de completar esse processo.
A alquimia tem muito que ver com o mito de Prometeu. Prometeu é castigado pelos deuses, porque teve o gesto generoso de tirar o fogo aos deuses e de o dar à humanidade. Pelo menos do ponto de vista simbólico, mítico, o início do desenvolvimento das civilizações deu-as com o fogo. No mito grego, Prometeu arrebatou o fogo do céu, que era um segredo dos deuses, e divulgou-o à humanidade. O que é que o alquimista faz ? O alquimista também vai buscar o fogo do céu em si mesmo, encarna-o, no sentido em que passa por um processo de encarnação da consciência. Porquê a importância deste processo de encarnação da consciência propriamente dita ? O ser humano é uma espécie biológica incompleta – ele não exatamente um ser humano ; precisa de outro elemento da natureza, muito mais potente, que assegure a sua completude, a sua totalidade, a sua auto-realização. De facto, na alquimia, é esse princípio de redenção, de transformação, que é integrado no processo orgânico e psicológico.
A transformação começa no coração. No início, segundo a psicologia da tradição alquímica, o coração representa duas coisas. Representa a psique humana, aquilo a que se chama “identidade pessoal”, ou consciência de si próprio em termos psicológicos, e tem dois modos de funcionamento : um modo operativo, que é residual, e outro, ligado á ação transformadora. O lado do coração que tem a chamada “pulsão de morte” está ligado á memória, a tudo o que é passado, a tudo o que é residual enquanto passado. O outro lado do coração representa outra instância, ligada á consciência. Na área da memória, há a memória propriamente dita, o passado, mas também o futuro, isto é, a nossa memória projectada enquanto desejo, criando um futuro imaginário ou de fantasmagoria. O outro lado do coração é a porta, no psiquismo humano, da consciência pessoal psicológica que tem afinidades com o processo de transformação. No ser humano há dois processos : um ligado ao passado e às expectativas do futuro imaginário, e um outro ligado à ação transformadora da consciência, ou seja, o processo de humanização propriamente dito, que está ligado ao presente, ao momento. Para s e ser, para termos um sentimento de ser, enquanto indivíduo, não podemos recorrer ao passado nem à projeção, e isto chama-se meditação, potenciando o lado solar do psiquismo humano, que tem fortes afinidades como princípio de consciência. Nas escolas de topo da meditação, que são escolas transpsicológicas que não acreditam na evolução psicológica do ser humano, e consideram a consciência psicológica como um beco sem saída, os processos meditativos da consciência têm que ver com lugar que a consciência ocupa. A noção de ser não se cria nem se estrutura, nem a partir do passado, nem a partir da auto-projeção – ela cria-se na condição não-dualista do ser.
Em termos de metáfora, o nosso psiquismo é uma espécie de Lua Nova, um lambisco de Quarto Crescente, enquanto a consciência total é a Lua Cheia. è por isso que a simbólica da Lua Cheia tem muito que ver com o processo da consciência. Dir-se-ia que o ser humano, no início do processo, é uma Lua Nova, escura. depois, quando o processo de transformação começa, vai aumentando até se converter numa Lua Cheia que reflete plenamente a luz solar. Há uma série de tratados alquímicos em que este processo está muito bem descrito, dizendo qual é a atitude que se deve ter face ao processo de transformação pessoal. E tudo é definido pelo vazio do coração, ou seja, o coração torna-se recipiente de todas as transformações. E isso quer dizer o princípio de consciência e o coração constituem dois pólos que se atraem irreversivelmente, desde que o indivíduo crie as condições psicológicas para esse casamento, ou núpcias alquímicas. É um processo em que o princípio de aspiração da consciência psicológica do momento se pode unir ao princípio de consciência propriamente dito. Isto quer dizer que a maior parte dos seres humanos não tem consciência, mas é um “simulacro” de consciência, que é a consciência psicológica em geral. Se estivermos presos da memória pessoal e da projeção fantasmática do futuro, não há espaço para um novo tipo de consciência no espaço do coração; criar, pela aspiração, disponibilidade e abertura ao novo, aqui e agora – isso é meditação. E isto é a alquimia – esta é a alquimia que nos transforma e permite encarnar plenamente a consciência.
Associação Hermes - VQ
A questão é tanto mais complicada, quando hoje se sabe que a alquimia não é um fenômeno europeu. Quando pensamos na alquimia, tendemos a pensar naqueles sábios de barbas à volta de uma série de instrumentos de vidro, a destilar substâncias estranhas, em busca da Pedra Filosofal. Aliás, no século XVIII e XIX, alguns pintores resolveram imaginar como seria o laboratório de um alquimista. Mais ou menos inspirados no progresso da química, fantasiaram o laboratório do alquimista como uma sala cheia de plantas penduradas, esqueletos, muitas retortas e destiladores, e o alquimista aparecia com um ar alucinado, a ver se a pedra filosofal saía dali. Nessa época, as pessoas achavam que o alquimista era mais ou menos um químico, mais ou menos alucinado, que andava à procura, dentro da retorta, de um mito mais ou menos irrealizável. A partir de Lavoisier, resolveu-se dizer que a alquimia era uma fábula, vinda sobretudo da tradição dos metalúrgicos antigos, isto é, dos primórdios da pré-história da química, tanto no Ocidente com no Próximo Oriente, como era o caso do Egipto. Mas também se sabe que as civilizações do Mediterrâneo, da China e da Índia, foram civilizações de grandes químicos, desde pelo menos há dois ou três mil anos. Elas produziam algo que foi, e é, equivalente à nossa tradição química ocidental, no sentido científico do termo. Nos séculos XVIII-XIX, quando surge a imagem do laboratório do alquimista, começa a haver a primeira preocupação dos estudiosos sobre como seria, de facto, o laboratório do alquimista. É evidente que quem assim o concebe, um laboratório fabuloso e imaginário, nunca viu um laboratório de alquimista. De facto, esse laboratório nunca foi nada do que foi descrito pelo imaginário da época.
Porque é alguém resolvia praticar alquimia ? Qual era o fascínio e a tentação ? Na Idade Média, havia reações contraditórias face à alquimia, à astrologia e disciplinas afins. Por um lado, havia o receio dessas disciplinas, que vinham do passado, da Antiguidade Clássica, serem uma ameaça aos princípios da teologia cristã, católica, porque essas disciplinas eram consideradas uma espécie de reminiscência pré-cristã, pagã, que vinham perturbar a ordem estabelecida. Graças a S. Tomás de Aquino, e outros, fora construído num edifício pré-estabelecido de relacionamento do Homem com Deus e com a Natureza, achando-se que esses modelos e paradigmas de interpretação do mundo, e da relação do homem como universo, que vinham da Antiguidade, traziam instabilidade à fé cristã e aos seus crentes e praticantes. A Igreja dividiu-se sempre entre uma igreja culta, um sector minoritário, que olhava para esses saberes, como saberes que podiam ser integrados dentro do universo cristão, e outro sector, bastante mais conservador, aterrorizado com qualquer perturbação do sistema, que resolveu renegar a alquimia, a astrologia, a prática do hermetismo em geral, e que vinham de um substrato popular de raiz não erudita . A cabala judaica na Europa, a alquimia, a astrologia eram práticas muito hostilizadas pelo sector mais conservador da Igreja de Roma. Muita coisa foi destruída nessa guerra contra a heresia.
No Ocidente, a primeira transmissão de tratados de alquimia chegou por mãos árabes. Há aqui duas correntes : uma, que vem do Oriente, pelo interior da Europa ; outra, que também vem do Oriente, no sentido de que a luz vem do Oriente, por via da cultura árabe. Foram os árabes que começaram a traduzir, não só as obras dos alquimistas árabes, mas sobretudo dos gregos – e nem se supunha que tivesse havido alquimistas na Grécia. É claro que existem imensos manuscritos, e uma tradição alquímica que chegou aos árabes graças a gerações e gerações de pessoas que foram reescrevendo e copiando os manuscritos e textos originais. Foi graças a gerações sucessivas, abarcando pelo menos dois mil anos de cultura, que muitos textos foram reproduzidos. Eram elementos de inspiração para aqueles que queriam abordar, pela primeira vez, a alquimia, ou para os que se sentiam fascinados, ou chamados, por esse saber estranho, a alquimia, que estabelecia uma espécie de relação física e orgânica entre o Homem e o Universo.
As grandes religiões defendiam que existe um mundo natural e outro sobrenatural. Ora, a alquimia, tal como a tradição hermética, diz que não há dissociação entre o “mundo natural” e o “mundo supranatural” ; não existe divisão entre espírito e matéria. Para as religiões tradicionais, nomeadamente o cristianismo, este postulado é uma autêntica subversão. Uma disciplina que vem dizer que “podemos provar fisicamente que não existe diferença entre espírito e matéria” é a maior das heresias. É evidente que para os alquimistas de filiação tradicional, o primeiro passo da sua auto-iniciação, era provar a si próprios, não apenas no domínio da sua própria consciência e do seu próprio ser, mas também no laboratório, no domínio físico, que espírito e matéria são indissociáveis, que natureza, espírito e matéria não são dissociáveis.
Qual é, então, o fascínio que a alquimia exerce sobre pessoas tão inteligentes, ao longo dos tempos ? Reis, príncipes, cardeais, nobres, burgueses e tantos outros, sentiram-se fascinados ou chamados a ela. Aceitaram o desafio de provar que, não só no seu próprio campo de consciência, não havia divisão entre espírito e matéria, entre consciência e mundo, entre consciência e natureza, como também fisicamente, na natureza, não havia divisão entre espírito e matéria, ou seja, o espírito e a matéria eram indivisíveis na própria natureza.
As religiões tradicionais, nomeadamente a tradição judaico-cristã, afirmavam que Deus criou o mundo em sete dias, depois deixou-o à sua sorte, ficando no céu a ver o espectáculo da criação. As teologias tradicionais separam o que é divino do que é mundano, o sagrado do profano – e toda a economia religiosa gira em torno desta separação. Separando o divino do não divino, o sagrado e o profano, é evidente que estão criados os ingredientes fundamentais da velha problemática do bem e do mal. As religiões precisam de uma separação entre consciência e corpo, no homem, entre espírito e matéria na natureza, para poderem desenvolver uma teologia do bem e do mal. Só numa perspectiva dualista, de divisão, é que se pode estabelecer uma teologia do bem e do mal. Mas se se considerar um modelo monista, integral, de que a consciência e o mundo, espírito e matéria, estão intrinsecamente integrados e são um só, obviamente não se pode estabelecer uma teologia do bem e do mal.
A alquimia punha, à partida, este desafio : todos nós fomos educados na teologia do bem e do mal, da culpa e da redenção, todos nós fomos sobrecarregados com este fardo desde que nascemos, como é podemos resolver o problema de outra maneira ? Este desafio encontra-se também na alquimia hindu, de tradição védica, na alquimia chinesa, onde os alquimistas mais conhecidos são os taoístas, os “monistas” da China, que acreditam na unidade entre espírito e matéria, consciência e corpo, no homem, numa unidade psico-somática.
A alquimia é um saber transmitido oralmente, de boca a ouvido, de mestre a discípulo. Quando, nas várias civilizações e tradições, se encontram textos escritos de alquimia é porque se está perante um saber de transmissão oral que se está a perder e, como tal, os últimos detentores desse saber passam-no a escrito, para que ele não se perca definitivamente. Uma forma de “escrita” empregue no Ocidente tem a ver com a construção das catedrais. A catedral era um convite ao cidadão da rua a conviver com o sagrado, pois seduzia com a sua monumentalidade e pela liturgia simbólica. As pessoas olhavam e achavam que havia ali um mistério. Estes monumentos de pedra, uma verdadeira consagração aos mistérios da divindade, são construções que sobem da terra ao céu, são uma espécie de explosão de inspiração em pedra. Nas primeiras catedrais, como Notre Dame e Chartres, entre outras, encontra-se pela primeira vez toda a tradição da alquimia gravada em pedra. A Catedral de Notre Dame, desde o portal, passando pela estrutura lateral até ao interior, é, toda ela, um manual prático da alquimia. É por isso que Notre Dame, construída nos séculos XIII-XIV, começou a ser um ponto de peregrinação para todos aqueles que procuravam redescobrir os grandes símbolos da alquimia, enquanto técnica operativa. Há uma quantidade razoável de manuscritos, a partir dos séculos XVII-XVIII, que descrevem em pormenor como é cada símbolo corresponde à visão, às técnicas e à operacionalidade da alquimia. Quando um saber como o da alquimia é gravado em pedra, é sinal que havia uma tradição que estava a morrer e em vias de se perder. Curiosamente, a maçonaria surge na Europa, com grande vivacidade, nos séculos XVII e XVIII, reivindicando-se justamente daquela elite de arquitectos iluminados que construíram as catedrais, ou seja, das guildas de construtores de catedrais – os pedreiros-livres, que vinham da tradição dos grandes artesãos da Idade Média, e que tinham uma imensa liberdade em recriar o seu trabalho e de introduzir elementos de criação, numa época em que a criação não era muito bem vinda, sobretudo no universo das representações dos mistérios divinos. No que se refere à tradição dos pedreiros-livres, que surge com grande vigor no século XVIII, fazem-se ainda descobertas notáveis. Em livros ilustrados do século XVIII , vê-se como a decoração de algumas lojas maçônicas recuperam os símbolos da tradição alquímica.
Encontramos a alquimia na China, na Índia, na Mesopotâmia, no Egipto, na tradição judaica. Encontramos alquimia em todas as grandes tradições, justamente porque a alquimia representava esse desafio “herético”, é uma provocação à cultura dualista de cada época. As grandes religiões e o poder instituído diziam que existia um poder no alto, que é diferente dos que estão em baixo ; existe um poder no alto que é Deus, e em baixo existe a natureza ; existe um poder no alto que é o espírito, em embaixo existe a matéria ; existe um demiurgo em cima, e o resto é criação. Não é por acaso que este tipo de pensamento é o sustentáculo dos poderes instituídos, exatamente porque cria a divisão nas sociedades. Na Índia, por exemplo, a sociedade está dividida em castas – uma verdadeira discriminação social e manutenção de privilégios, baseada no princípio quaternário, o dos quatro elementos. O algarismo 4 é o número do quadrado que representa a divisão natural do mundo criado. Se há imagem que representa o mundo criado, ou a estrutura organizada do universo, é o quadrado. Por outro lado, a dinâmica da consciência é representada pelo círculo. A relação entre consciência e o mundo, entre Deus e a Natureza, entre mente e corpo, era representada justamente por estes dois princípios : o círculo e o quadrado.
Diz-se que o alquimista não inventa rigorosamente nada, limita-se a seguir os passos da natureza. O alquimista é um imitador da natureza, um fiel “imitador da natureza”. A alquimia surge, em qualquer época e civilização, como uma ajuda, na observação atenta do que se passa na natureza. E a primeira observação tem a ver como é que se consegue, por meios simples, provar que, na natureza, não é possível separar o espírito da matéria. Em nós, observamos um “eu”, entidade mental e afetiva, e o corpo. O corpo é matéria, é criação, é natureza. Mas prezamos acima de tudo o “eu”, que não é igual a Deus. Eu não sou Deus, não sou Natureza, mas sou um pequeno “eu”, ou consciência psicológica, um “euzinho” que aspira a ser Deus, mas carece de asas para lá chegar, e que tem a pretensão de conhecer a natureza. O “eu, a consciência psicológica, é uma entidade altamente frustrada, que não consegue compreender nem os mistérios de Deus nem os mistérios da Natureza. Por definição, o essencial escapa à consciência psicológica.
O alquimista segue os passos da Natureza, tantas vezes representada por deusas da fecundidade, do princípio da criação, das coisas fecundas, da reprodução generosa, da multiplicidade. A natureza não é apenas sagrada, mas também generosa. Essas deusas representam a Primavera, e o que faz o alquimista atrás da Primavera ? O alquimista quer saber como é que a natureza se reproduz, essa é a primeira curiosidade do alquimista, saber como as coisas se reproduzem. A natureza não constrói as coisas de qualquer maneira, ela germina segundo determinados padrões. O alquimista tinha de ver como é que a natureza, e tudo à sua volta, se reproduz. Isto tem a ver com outra função do alquimista, que era a preocupação com a origem e reprodução do ser humano em laboratório. Era a velho teoria do homúnculo, hoje em dia glosada com a reprodução “in vitro” e a clonagem, entre outras, que eram velhos sonhos dos alquimistas. Conhecer as leis da criação do humano, do vegetal, do animal, de qualquer coisa ; conhecer como é que as coisas são criadas. Será que o ser humano pode aprender as leis da criação, aprendendo como o Criador cria ? Na alquimia taoísta, na China, na alquimia egípcia, e em todo o lado, os alquimistas têm uma espécie de simbólica, um pacto fundamental do mistério da alquimia, que é a criação do ser em laboratório. Mas afinal, o que queriam os alquimistas ? Queriam conhecer e compreender as leis da criação, reproduzir os métodos do Criador, queriam o segredo de um princípio gerador. E que princípio era esse ?
Para o alquimista a natureza é uma estrutura orgânica, uma estrutura viva, quer se trate de uma pedra ou de um planeta. De acordo com a visão do alquimista, uma pedra é parte do mistério da consciência, do mistério da vida. Ou seja, aquela linha que divide e separa o vegetal do animal, ou do mineral, não existe na alquimia. No pensamento tradicional da alquimia não existe a divisão entre orgânico e inorgânico, eliminando assim qualquer contradição entre eles. Nesta visão, existe um elemento comum orgânico e inorgânico. No pensamento alquímico, uma pedra não é orgânica nem inorgânica, é outra coisa. Habituados que estamos em raciocinar em termos de hemisfério direito e esquerdo, perdemos de vista que laboramos na base de uma estrutura dualista de pensamento. Qualquer informação que vem pelos sentidos é imediatamente processada como dualidade.
É possível provar que Deus e a Natureza são uma e a mesma coisa, e são inseparáveis. Deus não descansou ao sétimo dia. Tudo aquilo que a consciência criou, nela ficou intrinsecamente implicada, nessa criação. O criador não criou a natureza e separou-se dela. O criador e a natureza são uma e a mesma coisa. A consciência e o mundo são uma e mesma coisa. A proposta da alquimia é descobrir, por meios materiais, por meio do laboratório, por meio da experimentação, a comprovação desse mistério, que é aquilo que tradicionalmente se chama a Pedra Filosofal – a comprovação em laboratório de que o criador e a criação são inseparáveis.
O equinócio da Primavera, que é celebrado na Páscoa, assinala o mistério da morte e ressurreição, uma ressurreição gloriosa. Na Primavera, há três meses chamados “meses equinociais”. Todos os alquimistas sabiam que a partir da divisão do ano em equinócios e solstícios, era possível imitar a natureza. O que é que acontece na Primavera ? Existe um ímpeto irresistível de reprodução das espécies. No final do Inverno, as sementes começam a germinar e, na Primavera, há uma verdadeira explosão de matéria verde. Os animais, em geral, começam o seu ciclo de reprodução. Muitas vezes, os seres humanos são arrastados nesse tipo de entusiasmo e também se lançam na aventura da reprodução. Na Primavera, a biologia está muito mais ativa – é como se houvesse uma onda vital de fundo na natureza que percorre transversalmente toda a criação, todo o universo, todo o cosmos. A questão, para os alquimistas, era a seguinte : o que é que reproduz este ímpeto ? Porque é a natureza explode nesta espiral criativa ? Que força é esta, independente das explicações meteorológicas, do sol começar a subir cada vez mais no horizonte, dos dias irem ficando mais longos e quentes, até finalmente chegarmos ao dia mais longo do ano, quando o sol atinge o zênite, no solstício de Verão ? Os alquimistas viram que a Primavera representava algo extremamente importante : mas onde, na terra ou no céu ? Eles sabiam que a natureza, toda a atmosfera planetar, aquilo a que chamamos “a atmosfera respirável do planeta”, e não só, ficava saturada de um tipo de energia muito especial, que não ocorre em qualquer outra parte do ano. Há, com os equinócios e os solstícios, um ciclo, um pulsar do ano. É na Primavera que se manifesta esse princípio, que nos leva a perguntar : “Que princípio é esse que o demiurgo, que o criador, usou para criar e dar vida às coisas ? “. Os alquimistas disseram : “Esse mistério físico, químico, biológico, da criação pode ser descoberto na Primavera”. Como é que o alquimista resolve este mistério ? Os alquimistas diziam o seguinte : “Se, nos três meses da Primavera, a atmosfera do planeta fica saturada de um princípio vital, de um tipo completamente novo, que se reflete nessa explosão de criação a nível do planeta, sobretudo em determinadas latitudes, então, inventemos um suporte, uma espécie de acumulador de energia, que fique completamente saturado dessa energia. Inventemos um material acumulador, do tipo de uma pilha, que fique completamente carregado dessa energia”. Estes processos laboratoriais são os processos de saturação, que reforçam o princípio de saturação, até a matéria de base seja puramente transfigurada, se transforme naquele ponto em que espírito e matéria se revelam experimentalmente, em laboratório, como uma e a mesma coisa.
O que se passa na natureza, passa-se no homem, ou como dizia Hermes Trismegisto : “O que se passa em cima, passa-se me baixo ; o que está em cima, é como o que está em baixo”. Portanto, é estabelecendo uma relação de saber entre o céu e a terra, que as coisas se podem organizar num processo de transfiguração, e de experimentação de que espírito e matéria são indivisíveis, tanto no homem como na natureza. O princípio material transfigura-se na sua própria luz. Que princípio é esse ?
As gotas do céu, o orvalho, os elementos vitais do céu vão caindo sobre a terra, sobre a natureza, e vão tornando-a fecunda. Isto quer dizer que há um elemento de consciência no ser humano, algo no ser humano que torna fecundo o seu coração. E, desse princípio celeste, que é estranho às quatro estações, mas que age sobre elas ; caem gotinhas que tombam sobre o coração. O coração começa a brotar como se fosse uma semente, um bolbo, um elemento vegetal. Há um princípio de germinação, que uma vez tocado, e ao agir sobre o coração humano, provoca uma transformação no campo de consciência. Que coração é este ? Segundo a tradição, o coração é o órgão, um músculo com sístole e diástole. Se estou apaixonado, o coração aumenta o seu ritmo. Diz-se muitas : “Segue os ditames do coração”. Na tradição medieval e mesmo popular, “seguir os ditames do coração” significa que, quando tiveres medo, evita fazer qualquer coisa, porque o medo guarda a vinha. O barômetro cardíaco altera-se com uma enorme rapidez, na experiência das sensações. Portanto, tudo o que é informação visual, auditiva, cutânea, tudo são sensações ligadas à experiência dos sentidos altera o ritmo cardíaco. Na tradição alquímica, o coração era um órgão nobre, tanto biológica como fisiológica e organicamente. Mas, mais nobre é a função do órgão, ou seja, aquilo que está por detrás do órgão, aquilo que criou o órgão.
Esta perspectiva é muito interessante. Dizemos “nós vemos”. mas, nesta perspectiva, não é o olho que vê. Alguns alquimistas fizeram tratados extremamente importantes sobre a visão, nomeadamente sobre a percepção da cor. por exemplo o tratado de Goethe sobre a cor, e outros anteriores a ele. São os alquimistas que começam a fazer os primeiros ensaios sobre a percepção das cores. Fomos todos educados para dizer que é o olho que vê. Todo o sistema óptico, de facto, regista imagens, as sensações de imagens, ou seja, um conjunto de sensações sob a forma de imagens. Na audição, esse conjunto de sensações é transformado em estímulos auditivos. A visão transforma as sensações em imagens. E há órgãos especializados para esse fim. Na tradição alquímica isso não é verdade. O importante não é capacidade de olhar o mundo ; o importante é a capacidade de o ver. Ora, o órgão, o sistema de percepção, só é capaz de olhar, mas não é capaz de ver. A função cria o órgão, ela sim, ela é capaz de ver. É por isso que, no Oriente, se chamou a essa função que criou o órgão de visão “terceira visão” – não é igual aos dois olhos, mas forma um triângulo com eles. Na tradição alquímica, cada órgão humano estava ligado a um princípio planetar, a uma função. O fígado, por exemplo, estava ligado a Júpiter. Fígado em inglês diz-se “liver”, que tem a ver com o verbo “to live” – viver. Marte representou sempre no ser humano o princípio agressivo, de individuação, de distanciamento : “Eu aqui, tu aí!”. este princípio serve para criar a distância do “eu” relativamente ao mundo. O princípio jupiteriano tem a ver com a noção de compreensão do mundo, mesmo na tradição grega. Sob a influência dos romanos, todas estas noções adquiriram um outro sentido. A cultura romana é já uma cultura de plágio. Se o romano estava com maus fígados, só havia uma coisa a dizer :”Júpiter tinha maus fígados!”. Porquê ? Porque na tradição greco-romana, Júpiter era o deus do raio e da tempestade. Antes da tradição greco-romana, Júpiter era o princípio do raio, no sentido de que era o raio que criava uma ordem. Júpiter era aquele princípio que, no início dos tempos, pegava no caos, percorria o caos e instaurava-lhe uma ordem. Era um princípio ordenador. Portanto, esta noção de um impulso criador que ordena, que é típico de Júpiter, não pode ser confundida, mas os romanos confundiram-na com Marte. Na mitologia greco-romana, Marte tinha a função ligada á adrenalina, à força muscular e à agressividade. Cada órgão tem um princípio planetar na sua origem, e que o produz. Nesta perspectiva, há uma força, ma arquétipo, uma função ”marte” no cosmos que cria órgãos ou exprime no universo uma forma de estruturas que consubstanciam, organizam o princípio de separação, da força, da energia, da agressividade, e assim sucessivamente. Assim, quando os antigos falavam dos sete planetas sagrados, ou quando os alquimistas falavam dos sete metais sagrados, eles não falavam apenas para o nosso universo, mas para todo o universo. Essas sete forças existem em todo o universo – não são características do sistema solar, nem do planeta terra. Por isso, na tradição alquímica, quando falamos de coração, não é o coração-órgão, mas sim a função criadora, ou função organizadora que está por detrás do órgão do coração. Quando o coração aparece dividido em quatro câmaras, isso correspondia ás divisões do ciclo anual, na natureza. O coração possui dois momentos, ou movimentos : um corresponde á economia da morte, o outro ao renascimento, típico da simbólica da Páscoa. Por isso se diz que o processo da alquimia não é apenas um processo laboratorial, mas via usar o coração humano como recipiente, ou espaço de reprodução de todo o processo de laboratório. O “processo de laboratório” era uma metáfora aplicada ao ser humano, implicando os princípios Sol e Lua, e a relação entre eles. O Sol está assimilado ao Espírito Santo, e a Lua ao lado obscuro do coração. Na simbólica do ciclo do Graal, temos um cálice que recolhe o sangue de Cristo. A questão que se põe é : “Que sangue é esse que transfigura o coração ?”. Na alquimia passa-se a mesma coisa, há uma transfiguração, a “transmutação do coração” através de um princípio de mutação vindo da área da consciência, e não da natureza. Ou seja, não é possível realizar um processo de unificação da natureza sem que haja uma correlação com o princípio de unificação do indivíduo. Não há unificação do indivíduo sem uma correspondência com a experiência de unificação da natureza. No ser humano o coração é equivalente ao sol, o ser humano é representado como um pequeno universo. E é por isso que o coração é considerado órgão-rei, central, porque existe um sistema vital, um sistema funcional, não definível em termos de leis biológicas, que mantém o sistema em funcionamento.
Na natureza não existe um átomo, uma molécula, uma sub partícula atômica que não tenha o mesmo ritmo. Na natureza não existe nenhuma estrutura que não seja animada por um princípio organizador. A matéria não se encontra organizada segundo leis cegas, mas por princípios organizadores. Ao alquimistas definiam que, no ser humano, existe um conjunto de princípios organizadores, assimilados aos sete planetas tradicionais, que constituem as grandes leis do desenvolvimento humano. A estação ideal para esta constatação é a Primavera, o equinócio da Primavera. Está dito em todos os tratados de alquimia. Diz-se sempre que a obra física da alquimia começa na Primavera, na Páscoa, porque nesta época há uma nova aspiração para a transformação do campo de consciência, há um impulso que varre a natureza e nos arrasta, não somente em termos biológicos, mas sobretudo em termos de consciência. O alquimista, na proximidade de cada Primavera, sente a necessidade de se auto-realizar plenamente. A Primavera anuncia um ciclo de auto-transformação e, por conseguinte, o início do trabalho do alquimista, seja no laboratório, seja em si mesmo, começa, sob o impulso da natureza renovada, em termos de campo de consciência. De onde vem este princípio ? Se remontarmos ao Egipto, vemos que todas as divindades solares egípcias não têm qualquer relação com o coração, diretamente. Mas o gesto que fazem quando falam de consciência é o de abrir os braços em triângulo para o alto. E porquê ? Porque se sabia que a consciência é algo tangencial à estrutura do cérebro. Inicialmente, essa linha é tangencial. Depois, vai sendo cada vez mais integrada. Dir-se-ia que há a descida de um princípio de consciência ativo, que se chama “lótus de mil pétalas”, na tradição hindu, é a figuração de um centro piso-energético da consciência propriamente dita. E quando se criam as condições psicológicas, as chamadas “condições meditativas” da consciência psicológica, esse princípio – o chamado raio de Júpiter, reorganiza o ser humano, como se o ser humano fosse um caos inicial. Neste tipo de escola, parte-se do princípio que o ser humano, neste processo de iniciação é, à partida, um caos física e psicologicamente, e que este princípio de consciência vai organizar esse caos. Assim há a iniciação psicológica do ser humano até um determinado ponto, e quando esse ponto é atingido, é a ação da consciência propriamente dita que age, que atua e transforma.
Quais são as condições para a ação desse princípio de consciência no ser humano ? A experiência diz não ser possível ao ser humano, por iniciativa puramente psicológica, fazer um processo de mutação do seu campo de consciência, ou seja, transformar-se num ser humano a sério, passando de uma ser biológico para um ser humano real. A alquimia diz-nos que o ser humano pode evoluir em termos de civilização, indefinidamente. Simplesmente, o produto final será sempre idêntico no culminar de uma determinada civilização. Isto é, qualquer civilização produz um ser humano civilizado no seu culminar, mas em qualquer civilização é sempre igual à anterior. Acreditamos que o homem evolui através da sua experiência social e histórica, mas o ser humano que atinge o máximo das suas possibilidades evolutivas não vai mais adiante, no seu processo de humanização real. O ser humano pode ser uma espécie biológica avançada, que tem a capacidade de auto-aperfeiçoamento até um determinado nível, mas precisa de completar o trabalho da própria natureza, para ser realmente humano. A civilização é incapaz de levar este processo de desenvolvimento humano até à sua etapa final. É o próprio ser humano que vai ter de completar esse processo.
A alquimia tem muito que ver com o mito de Prometeu. Prometeu é castigado pelos deuses, porque teve o gesto generoso de tirar o fogo aos deuses e de o dar à humanidade. Pelo menos do ponto de vista simbólico, mítico, o início do desenvolvimento das civilizações deu-as com o fogo. No mito grego, Prometeu arrebatou o fogo do céu, que era um segredo dos deuses, e divulgou-o à humanidade. O que é que o alquimista faz ? O alquimista também vai buscar o fogo do céu em si mesmo, encarna-o, no sentido em que passa por um processo de encarnação da consciência. Porquê a importância deste processo de encarnação da consciência propriamente dita ? O ser humano é uma espécie biológica incompleta – ele não exatamente um ser humano ; precisa de outro elemento da natureza, muito mais potente, que assegure a sua completude, a sua totalidade, a sua auto-realização. De facto, na alquimia, é esse princípio de redenção, de transformação, que é integrado no processo orgânico e psicológico.
A transformação começa no coração. No início, segundo a psicologia da tradição alquímica, o coração representa duas coisas. Representa a psique humana, aquilo a que se chama “identidade pessoal”, ou consciência de si próprio em termos psicológicos, e tem dois modos de funcionamento : um modo operativo, que é residual, e outro, ligado á ação transformadora. O lado do coração que tem a chamada “pulsão de morte” está ligado á memória, a tudo o que é passado, a tudo o que é residual enquanto passado. O outro lado do coração representa outra instância, ligada á consciência. Na área da memória, há a memória propriamente dita, o passado, mas também o futuro, isto é, a nossa memória projectada enquanto desejo, criando um futuro imaginário ou de fantasmagoria. O outro lado do coração é a porta, no psiquismo humano, da consciência pessoal psicológica que tem afinidades com o processo de transformação. No ser humano há dois processos : um ligado ao passado e às expectativas do futuro imaginário, e um outro ligado à ação transformadora da consciência, ou seja, o processo de humanização propriamente dito, que está ligado ao presente, ao momento. Para s e ser, para termos um sentimento de ser, enquanto indivíduo, não podemos recorrer ao passado nem à projeção, e isto chama-se meditação, potenciando o lado solar do psiquismo humano, que tem fortes afinidades como princípio de consciência. Nas escolas de topo da meditação, que são escolas transpsicológicas que não acreditam na evolução psicológica do ser humano, e consideram a consciência psicológica como um beco sem saída, os processos meditativos da consciência têm que ver com lugar que a consciência ocupa. A noção de ser não se cria nem se estrutura, nem a partir do passado, nem a partir da auto-projeção – ela cria-se na condição não-dualista do ser.
Em termos de metáfora, o nosso psiquismo é uma espécie de Lua Nova, um lambisco de Quarto Crescente, enquanto a consciência total é a Lua Cheia. è por isso que a simbólica da Lua Cheia tem muito que ver com o processo da consciência. Dir-se-ia que o ser humano, no início do processo, é uma Lua Nova, escura. depois, quando o processo de transformação começa, vai aumentando até se converter numa Lua Cheia que reflete plenamente a luz solar. Há uma série de tratados alquímicos em que este processo está muito bem descrito, dizendo qual é a atitude que se deve ter face ao processo de transformação pessoal. E tudo é definido pelo vazio do coração, ou seja, o coração torna-se recipiente de todas as transformações. E isso quer dizer o princípio de consciência e o coração constituem dois pólos que se atraem irreversivelmente, desde que o indivíduo crie as condições psicológicas para esse casamento, ou núpcias alquímicas. É um processo em que o princípio de aspiração da consciência psicológica do momento se pode unir ao princípio de consciência propriamente dito. Isto quer dizer que a maior parte dos seres humanos não tem consciência, mas é um “simulacro” de consciência, que é a consciência psicológica em geral. Se estivermos presos da memória pessoal e da projeção fantasmática do futuro, não há espaço para um novo tipo de consciência no espaço do coração; criar, pela aspiração, disponibilidade e abertura ao novo, aqui e agora – isso é meditação. E isto é a alquimia – esta é a alquimia que nos transforma e permite encarnar plenamente a consciência.
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Alquimia e Evolução Espiritual
Em 18 de maio de 1988, Fernand Schwarz, membro da Nova Acrópole da França, antropólogo e historiador das religiões, nos dava, em uma conferência intitulada "Alquimia e Evolução Espiritual", as chaves para compreender melhor os fundamentos dessa ciência tradicional. Nós reproduzimos, ao longo deste artigo, a essência deste tema, esperando que nos possa trazer essa visão extraordinária que restitui ao homem sua dimensão de ser em evolução, capaz de cumprir seu destino em uma participação ativa nos mistérios da Natureza.
O nome alquimia evoca freqüentemente a imagem célebre da Idade Média de um ancião ocupado em seu laboratório, em torno de instrumentos, cada um mais misterioso que os outros, com uma única obsessão: a descoberta da Pedra Filosofal.
Na verdade, essa ciência de transformação dos metais ou plantas não era estranha nem aos árabes nem aos egípcios, nem mesmo aos chineses ou aos povos pré-colombianos, mas, pelas suas características fundamentais, que são de construção de uma visão simbólica das mutações naturais, tem suas raízes nas próprias origens da humanidade. Todas as tradições mágico-religiosas, conhecidas por nós desde a mais alta antiguidade, traduzem com efeito a preocupação dos nossos ancestrais em dar um sentido profundo às mutações naturais, das quais eles eram as testemunhas ou até mesmo os protagonistas.
Tomemos, por exemplo, a extração dos metais. Para o homem dito "primitivo", o metal era o coração vivo da pedra inanimada. O extrato da sua essência material não era nada além da decomposição e recomposição da natureza de uma série de purificações. Face à pedra bruta, símbolo da inércia, da "luz morta", o metal puro opunha sua extraordinária leveza à sua dureza, todos os dois símbolos de uma matéria capaz de desposar as formas do espírito.
A alquimia traz uma transformação profunda da natureza das coisas, mantendo, contudo, um padrão natural. Ela é, neste sentido, uma ciência do próprio ser.
Freqüentemente, tenta-se dar à alquimia a qualidade de ancestral da química. Esta concepção da alquimia não pode de forma alguma nos conduzir à compreensão, já que a química tem uma abordagem absolutamente diferente dos fenômenos naturais.
Certamente, em alguns casos, trata-se de uma questão de mutação natural. Mas, enquanto a química é baseada na observação dos fenômenos, na direção do exterior (observador) para o interior (componentes da matéria), a alquimia, ao contrário, observa os fenômenos a partir do interior em direção ao exterior, portanto, no sentido da essência para a aparência formal.
Com a química, nós podemos falar de transformações, estudar a transformação da aparência dos seres e estabelecer uma classificação baseada em um princípio de identidade: A é A, mas não pode ser B, pois eles diferem em forma. Com a alquimia, abre-se para nós o mistério da transmutação, acessível pelo poder da analogia entre o observador e o ser em transformação. Há, assim, duas vias complementares de acesso à compreensão da vida. Dessa forma, podemos dizer que a alquimia pode ser integrada à química apenas porque trata, em última análise, das transformações inerentes a toda transmutação.
Precisa-se compreender, de fato, que um homem pode se transformar facilmente se ele utiliza todo tipo de disfarces, dos mais grosseiros aos mais nobres, mas que lhe será muito mais adequado transformar sua natureza profunda para que a sua nobreza sobressaia. Tal é o apaixonante desafio que se oferece a quem deseja compreender os princípios da alquimia.
Uma ciência objetiva supõe a aquisição de técnica precisa, como uma interface entre o observador e o observado. Os resultados obtidos não consideram o estado da alma do observador, devendo esta tornar-se o mais distante possível para alcançar a objetividade. É por isso que ele pode ser mesmo substituído por um computador.
Esta mecânica do espírito é acessível a todos sem profundos questionamentos e é isto que faz com que a pedagogia de uma ciência assim conduzida seja efetivamente simples.
Com a linguagem alquímica, nós nos encontramos defronte a uma outra forma de pedagogia que só supúnhamos alcançável nos povos nativos. Podemos dizer que a linguagem alquímica é, com efeito, uma poética que diz respeito essencialmente à imaginação.
Assim, não descrevemos um texto alquímico como um enunciado matemático. No entanto, freqüentemente encontramos códigos secretos e histórias fantásticas pondo em cena as criaturas que só existem no imaginário. Isto é, de certa forma, desanimador e pode ser um muro para aqueles que não fazem esforço imaginativo. Compreender o interior implica então que nosso próprio mundo interior seja suficientemente rico de imagens simbólicas, prontas a entrar em ressonância com as sugestões do texto. Não poderemos compreender se não podemos ver o que é sugerido. Por que esta aparente barreira que faz muitas vezes da alquimia uma ciência hermética?
A alquimia é uma arte antes de ser uma técnica. É a arte do amor ou a arte real, como diziam os alquimistas da Idade Média. Sua característica hermética não é outra coisa senão a marca de respeito a todo ser vivo. Pode-se tocar algo a partir de um simples contato físico, mas isto não nos dará nada além de um conhecimento superficial, passageiro e aleatório. Tocar seu coração nos abrirá, ao contrário, a verdadeira dimensão, aquela do ser cujo corpo é apenas uma vestimenta. Tudo isto constitui a compreensão profunda da linguagem simbólica.
O conhecimento alquímico se estabelecerá pela atitude de fazer vibrar nossa corda interior em harmonia com aquela do ser que desejamos conhecer, quer se trate de um humano, de um animal, de uma planta e - por que não? - de uma pedra.
Tudo é vivo para o alquimista. Sua preocupação é aprender a arte de dialogar com o que é vivo em cada coisa, pois com essa ligação poderá processar transformações.
A alquimia ou a arte da circulação
Podemos agora compreender melhor o credo fundamental do alquimista: "Libertar o espírito pela matéria e libertar a matéria pelo espírito."
Esta dupla libertação se exprime pela existência de uma enorme circulação entre as regiões mais densas do ser e aquelas mais sutis. É por isso que falar da alquimia material ou da alquimia espiritual é um contra-senso.
Toda criatura é uma simbiose entre uma Idéia e uma Substância. A alquimia se interessa pela relação que os une, relação que não pode ser nada além de paradoxal, dada a antítese que existe entre estes dois mundos. Só a Idéia da circulação pode suportar o paradoxo dissolução e coagulação, uma outra fronteira da alquimia, que ilustra bem esta circulação. Dissolver e recompor o tanto de vezes que for necessário para obter a simbiose mais perfeita entre matéria e espírito: a pedra filosofal.
Pensamento e ação
PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Inteligibilidade
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Realização, Matéria, Sensibilidade
Sabemos verdadeiramente unir todos os nossos atos a nossos pensamentos e fazer de nossas ações o fermento de novas idéias? Isto parece simples, mas este paradoxo é efetivamente a chave de toda obra alquímica. Como fazer para ter a motivação necessária, expressa em termos de energia, para transformar nosso ambiente segundo o ideal que estabelecemos para nossa vida?
Em nosso tempo, pôr em ação uma idéia torna-se cada vez mais difícil. Vemos freqüentemente o homem renunciar a seus projetos e até mesmo a seus ideais. Assim, podemos dizer que apenas um esforço de concretização de nossas Idéias pode nos fazer mudar profundamente.
Somos o resultado de nossas obras. Modificar a obra é nos modificarmos. É um precioso florescer, e é em todo caso a melhor "receita" anti-stress que existe. Não colocar essa idéia em prática é uma fonte de bloqueios internos, de amargura e de desencorajamento. O homem confrontado entre o pensamento idealista e a realidade concreta encontra como saída a preocupação individualista. Deste sentimento, sobrevêm a insegurança e os pensamentos sem o compromisso com uma concretização. E, diante disso, fecha-se inelutavelmente o mistério alquímico.
Como reconciliar o irreconciliável?
Toda união pode se traduzir em termos do amor. O problema da circulação entre o espírito e a matéria se situa, pois, em um plano que não está nem em um, nem no outro, é um tipo de interrelação caracterizada pela afetividade. Toda paralisação na circulação exprime uma "constipação do afetivo". Quando, por exemplo, somos paralisados em uma situação de pânico, somos simplesmente bloqueados: a solução que poderia nos salvar e que se situa em um plano mental (se eu agir de tal forma, então acontecerá isto...) não encontra um caminho de manifestação real da ação.
Este caminho é justamente o caminho da imaginação. Imaginar com determinação um objetivo nos permitirá disparar o motor da ação. É este próprio contato que encontramos em todas as tradições que nos apresentam os mundos em uma divisão ternária e funcional.
A interrelação, sustentáculo da imaginação
Podemos conceber, na linha que acabamos de expor, que o universo vivo, ao qual o homem pertence, funciona graças à interação de pensamento e ação em uma interrelação que podemos chamar da imaginação.
PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Modelos atemporais
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Concretização, Matéria, Temporalidade
O mundo da Imaginação é tão real como um objeto ou uma idéia podem ser. Sem ele seríamos como animais, incapazes de crer, por exemplo, no cinema, que nos faz rir ou chorar pelo efeito de uma imagem projetada sobre uma tela, que desperta veículos emocionais ou afetivos em nós mesmos.
O mundo de imagens que concebemos em sonho ou em vigília faz parte do mundo da imaginação. A Imaginação é o espaço de todos os paradoxos.
É, portanto, nesta região perigosa que os fantasmas se abrigam, e também, ao mesmo tempo, é este jardim secreto, situado fora do tempo, verdadeira idade de ouro na qual nossas ações possuirão o entusiasmo, como se possuíssemos uma fonte de energia incalculável. E que homem poderia viver sem este conjunto de imagens estruturais que dão um sentido à vida? Não é neste mundo que se situa a realidade humana, aquela de um ator representando um personagem no teatro da vida?
A Imaginação criadora, espaço da evolução espiritual
Retornemos a esta concepção da alquimia como circulação incessante de energia. Nós falamos anteriormente de cordas que vibram em nós para fazer vibrar tudo que nos rodeia. Estas cordas são nossas imagens interiores, quintessências do mundo concreto que transformarão, por exemplo, uma simples árvore no símbolo eterno do eixo do mundo, mas essas cordas são também os poderes de condensação das idéias nos nossos atos. Ser capazes de extrair de nossos atos uma energia que ultrapassa o ato próprio nos torna leves na plenitude do ser. Agir de forma diferente é apenas uma forma de usura da qual sairemos vazios e inanimados. A arte alquímica permite um pouco mais, como a transmutação da matéria liberta em energia excedente. O importante é que esta energia possa ser controlada para que ela não seja a própria imagem de uma bomba atômica, dispersa a todo vapor e perdida para sempre.
"Dissolver e coagular", transportar-se pelo entusiasmo de um ato que vivifica nossa imaginação e reunir estas energias para nos reciclar com novas ações, isto pode ser considerado a verdadeira arte real.
Então o mistério da pedra filosofal se desvela diante de nossos olhos como o ser empenhado na circulação das energias e na arte de transfiguração de tudo que ele toca: a pedra filosofal no reino mineral transmutará o chumbo em ouro; no reino vegetal, ela acelerará a fabricação dos elixires e, no plano humano, ela será este ser de luz capaz, pela sua presença, de abrir o coração dos homens à procura de seus pontos mais elevados. Como compreender de outra forma que Cristo tenha sido comparado, na Idade Média, àquela famosa pedra filosofal? Como compreender que outros homens tenham conseguido transformar, a partir dessa forma de história, não somente seus contemporâneos, mas gerações inteiras que os sucederam?
Conclusão
Fernando Schwarz nos relembra a disciplina inerente a todas as questões alquímicas, que são as verdadeiras provas do candidato. Esta disciplina transparece nas linhas anteriores, mas nossos leitores poderão se perguntar: como fazer concretamente para realizar esta pedra filosofal, fonte de toda evolução espiritual?
Através do amor, chave central da alquimia, desde que ele se traduza em um regozijo duradouro ou que signifique uma irradiação da força profunda dos seres. Entre estes dois pontos se situa a simples necessidade do candidato. Se ele deseja conhecer o que é vital para ele, a porta do mistério alquímico poderá se abrir. Caso contrário, se houver uma simples curiosidade intelectual, a porta se fecha. E, então, a questão do "como fazer", intenção artificial nascida no intelecto, esconderá a realidade de um "porquê fazer" mal definido.
Fernand Schwarz nos alerta: "Aquilo que não tem o porquê procurará sempre o como". E nós poderemos acrescentar que de como em como este homem perderá sempre mais oportunidades de descobrir em si o porquê.
Se as escolas iniciáticas têm sempre imposto duras provas a seus candidatos, parece que é justamente para julgar sua necessidade de adquirir este conhecimento: se estariam preparados para a série de sacrifícios inerentes a toda transmutação interior; se seriam suficientemente prudentes para ser respeitadores da extraordinária sabedoria de que poderiam ser depositários ou se seriam apenas simples falsários, orgulhosos de seus diplomas, mas incapazes de sentir a mínima compaixão diante do drama da vida. Eles teriam que, para citar uma última máxima alquímica,
"SABER, PODER, OUSAR E SE CALAR ..."
Compilado por Frédéric Blanchard
http://www.acropole.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=145%3Aalquimia-evolution&catid=39%3Aartigo-simbolismo&Itemid=57
O nome alquimia evoca freqüentemente a imagem célebre da Idade Média de um ancião ocupado em seu laboratório, em torno de instrumentos, cada um mais misterioso que os outros, com uma única obsessão: a descoberta da Pedra Filosofal.
Na verdade, essa ciência de transformação dos metais ou plantas não era estranha nem aos árabes nem aos egípcios, nem mesmo aos chineses ou aos povos pré-colombianos, mas, pelas suas características fundamentais, que são de construção de uma visão simbólica das mutações naturais, tem suas raízes nas próprias origens da humanidade. Todas as tradições mágico-religiosas, conhecidas por nós desde a mais alta antiguidade, traduzem com efeito a preocupação dos nossos ancestrais em dar um sentido profundo às mutações naturais, das quais eles eram as testemunhas ou até mesmo os protagonistas.
Tomemos, por exemplo, a extração dos metais. Para o homem dito "primitivo", o metal era o coração vivo da pedra inanimada. O extrato da sua essência material não era nada além da decomposição e recomposição da natureza de uma série de purificações. Face à pedra bruta, símbolo da inércia, da "luz morta", o metal puro opunha sua extraordinária leveza à sua dureza, todos os dois símbolos de uma matéria capaz de desposar as formas do espírito.
A alquimia traz uma transformação profunda da natureza das coisas, mantendo, contudo, um padrão natural. Ela é, neste sentido, uma ciência do próprio ser.
Freqüentemente, tenta-se dar à alquimia a qualidade de ancestral da química. Esta concepção da alquimia não pode de forma alguma nos conduzir à compreensão, já que a química tem uma abordagem absolutamente diferente dos fenômenos naturais.
Certamente, em alguns casos, trata-se de uma questão de mutação natural. Mas, enquanto a química é baseada na observação dos fenômenos, na direção do exterior (observador) para o interior (componentes da matéria), a alquimia, ao contrário, observa os fenômenos a partir do interior em direção ao exterior, portanto, no sentido da essência para a aparência formal.
Com a química, nós podemos falar de transformações, estudar a transformação da aparência dos seres e estabelecer uma classificação baseada em um princípio de identidade: A é A, mas não pode ser B, pois eles diferem em forma. Com a alquimia, abre-se para nós o mistério da transmutação, acessível pelo poder da analogia entre o observador e o ser em transformação. Há, assim, duas vias complementares de acesso à compreensão da vida. Dessa forma, podemos dizer que a alquimia pode ser integrada à química apenas porque trata, em última análise, das transformações inerentes a toda transmutação.
Precisa-se compreender, de fato, que um homem pode se transformar facilmente se ele utiliza todo tipo de disfarces, dos mais grosseiros aos mais nobres, mas que lhe será muito mais adequado transformar sua natureza profunda para que a sua nobreza sobressaia. Tal é o apaixonante desafio que se oferece a quem deseja compreender os princípios da alquimia.
Uma ciência objetiva supõe a aquisição de técnica precisa, como uma interface entre o observador e o observado. Os resultados obtidos não consideram o estado da alma do observador, devendo esta tornar-se o mais distante possível para alcançar a objetividade. É por isso que ele pode ser mesmo substituído por um computador.
Esta mecânica do espírito é acessível a todos sem profundos questionamentos e é isto que faz com que a pedagogia de uma ciência assim conduzida seja efetivamente simples.
Com a linguagem alquímica, nós nos encontramos defronte a uma outra forma de pedagogia que só supúnhamos alcançável nos povos nativos. Podemos dizer que a linguagem alquímica é, com efeito, uma poética que diz respeito essencialmente à imaginação.
Assim, não descrevemos um texto alquímico como um enunciado matemático. No entanto, freqüentemente encontramos códigos secretos e histórias fantásticas pondo em cena as criaturas que só existem no imaginário. Isto é, de certa forma, desanimador e pode ser um muro para aqueles que não fazem esforço imaginativo. Compreender o interior implica então que nosso próprio mundo interior seja suficientemente rico de imagens simbólicas, prontas a entrar em ressonância com as sugestões do texto. Não poderemos compreender se não podemos ver o que é sugerido. Por que esta aparente barreira que faz muitas vezes da alquimia uma ciência hermética?
A alquimia é uma arte antes de ser uma técnica. É a arte do amor ou a arte real, como diziam os alquimistas da Idade Média. Sua característica hermética não é outra coisa senão a marca de respeito a todo ser vivo. Pode-se tocar algo a partir de um simples contato físico, mas isto não nos dará nada além de um conhecimento superficial, passageiro e aleatório. Tocar seu coração nos abrirá, ao contrário, a verdadeira dimensão, aquela do ser cujo corpo é apenas uma vestimenta. Tudo isto constitui a compreensão profunda da linguagem simbólica.
O conhecimento alquímico se estabelecerá pela atitude de fazer vibrar nossa corda interior em harmonia com aquela do ser que desejamos conhecer, quer se trate de um humano, de um animal, de uma planta e - por que não? - de uma pedra.
Tudo é vivo para o alquimista. Sua preocupação é aprender a arte de dialogar com o que é vivo em cada coisa, pois com essa ligação poderá processar transformações.
A alquimia ou a arte da circulação
Podemos agora compreender melhor o credo fundamental do alquimista: "Libertar o espírito pela matéria e libertar a matéria pelo espírito."
Esta dupla libertação se exprime pela existência de uma enorme circulação entre as regiões mais densas do ser e aquelas mais sutis. É por isso que falar da alquimia material ou da alquimia espiritual é um contra-senso.
Toda criatura é uma simbiose entre uma Idéia e uma Substância. A alquimia se interessa pela relação que os une, relação que não pode ser nada além de paradoxal, dada a antítese que existe entre estes dois mundos. Só a Idéia da circulação pode suportar o paradoxo dissolução e coagulação, uma outra fronteira da alquimia, que ilustra bem esta circulação. Dissolver e recompor o tanto de vezes que for necessário para obter a simbiose mais perfeita entre matéria e espírito: a pedra filosofal.
Pensamento e ação
PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Inteligibilidade
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Realização, Matéria, Sensibilidade
Sabemos verdadeiramente unir todos os nossos atos a nossos pensamentos e fazer de nossas ações o fermento de novas idéias? Isto parece simples, mas este paradoxo é efetivamente a chave de toda obra alquímica. Como fazer para ter a motivação necessária, expressa em termos de energia, para transformar nosso ambiente segundo o ideal que estabelecemos para nossa vida?
Em nosso tempo, pôr em ação uma idéia torna-se cada vez mais difícil. Vemos freqüentemente o homem renunciar a seus projetos e até mesmo a seus ideais. Assim, podemos dizer que apenas um esforço de concretização de nossas Idéias pode nos fazer mudar profundamente.
Somos o resultado de nossas obras. Modificar a obra é nos modificarmos. É um precioso florescer, e é em todo caso a melhor "receita" anti-stress que existe. Não colocar essa idéia em prática é uma fonte de bloqueios internos, de amargura e de desencorajamento. O homem confrontado entre o pensamento idealista e a realidade concreta encontra como saída a preocupação individualista. Deste sentimento, sobrevêm a insegurança e os pensamentos sem o compromisso com uma concretização. E, diante disso, fecha-se inelutavelmente o mistério alquímico.
Como reconciliar o irreconciliável?
Toda união pode se traduzir em termos do amor. O problema da circulação entre o espírito e a matéria se situa, pois, em um plano que não está nem em um, nem no outro, é um tipo de interrelação caracterizada pela afetividade. Toda paralisação na circulação exprime uma "constipação do afetivo". Quando, por exemplo, somos paralisados em uma situação de pânico, somos simplesmente bloqueados: a solução que poderia nos salvar e que se situa em um plano mental (se eu agir de tal forma, então acontecerá isto...) não encontra um caminho de manifestação real da ação.
Este caminho é justamente o caminho da imaginação. Imaginar com determinação um objetivo nos permitirá disparar o motor da ação. É este próprio contato que encontramos em todas as tradições que nos apresentam os mundos em uma divisão ternária e funcional.
A interrelação, sustentáculo da imaginação
Podemos conceber, na linha que acabamos de expor, que o universo vivo, ao qual o homem pertence, funciona graças à interação de pensamento e ação em uma interrelação que podemos chamar da imaginação.
PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Modelos atemporais
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Concretização, Matéria, Temporalidade
O mundo da Imaginação é tão real como um objeto ou uma idéia podem ser. Sem ele seríamos como animais, incapazes de crer, por exemplo, no cinema, que nos faz rir ou chorar pelo efeito de uma imagem projetada sobre uma tela, que desperta veículos emocionais ou afetivos em nós mesmos.
O mundo de imagens que concebemos em sonho ou em vigília faz parte do mundo da imaginação. A Imaginação é o espaço de todos os paradoxos.
É, portanto, nesta região perigosa que os fantasmas se abrigam, e também, ao mesmo tempo, é este jardim secreto, situado fora do tempo, verdadeira idade de ouro na qual nossas ações possuirão o entusiasmo, como se possuíssemos uma fonte de energia incalculável. E que homem poderia viver sem este conjunto de imagens estruturais que dão um sentido à vida? Não é neste mundo que se situa a realidade humana, aquela de um ator representando um personagem no teatro da vida?
A Imaginação criadora, espaço da evolução espiritual
Retornemos a esta concepção da alquimia como circulação incessante de energia. Nós falamos anteriormente de cordas que vibram em nós para fazer vibrar tudo que nos rodeia. Estas cordas são nossas imagens interiores, quintessências do mundo concreto que transformarão, por exemplo, uma simples árvore no símbolo eterno do eixo do mundo, mas essas cordas são também os poderes de condensação das idéias nos nossos atos. Ser capazes de extrair de nossos atos uma energia que ultrapassa o ato próprio nos torna leves na plenitude do ser. Agir de forma diferente é apenas uma forma de usura da qual sairemos vazios e inanimados. A arte alquímica permite um pouco mais, como a transmutação da matéria liberta em energia excedente. O importante é que esta energia possa ser controlada para que ela não seja a própria imagem de uma bomba atômica, dispersa a todo vapor e perdida para sempre.
"Dissolver e coagular", transportar-se pelo entusiasmo de um ato que vivifica nossa imaginação e reunir estas energias para nos reciclar com novas ações, isto pode ser considerado a verdadeira arte real.
Então o mistério da pedra filosofal se desvela diante de nossos olhos como o ser empenhado na circulação das energias e na arte de transfiguração de tudo que ele toca: a pedra filosofal no reino mineral transmutará o chumbo em ouro; no reino vegetal, ela acelerará a fabricação dos elixires e, no plano humano, ela será este ser de luz capaz, pela sua presença, de abrir o coração dos homens à procura de seus pontos mais elevados. Como compreender de outra forma que Cristo tenha sido comparado, na Idade Média, àquela famosa pedra filosofal? Como compreender que outros homens tenham conseguido transformar, a partir dessa forma de história, não somente seus contemporâneos, mas gerações inteiras que os sucederam?
Conclusão
Fernando Schwarz nos relembra a disciplina inerente a todas as questões alquímicas, que são as verdadeiras provas do candidato. Esta disciplina transparece nas linhas anteriores, mas nossos leitores poderão se perguntar: como fazer concretamente para realizar esta pedra filosofal, fonte de toda evolução espiritual?
Através do amor, chave central da alquimia, desde que ele se traduza em um regozijo duradouro ou que signifique uma irradiação da força profunda dos seres. Entre estes dois pontos se situa a simples necessidade do candidato. Se ele deseja conhecer o que é vital para ele, a porta do mistério alquímico poderá se abrir. Caso contrário, se houver uma simples curiosidade intelectual, a porta se fecha. E, então, a questão do "como fazer", intenção artificial nascida no intelecto, esconderá a realidade de um "porquê fazer" mal definido.
Fernand Schwarz nos alerta: "Aquilo que não tem o porquê procurará sempre o como". E nós poderemos acrescentar que de como em como este homem perderá sempre mais oportunidades de descobrir em si o porquê.
Se as escolas iniciáticas têm sempre imposto duras provas a seus candidatos, parece que é justamente para julgar sua necessidade de adquirir este conhecimento: se estariam preparados para a série de sacrifícios inerentes a toda transmutação interior; se seriam suficientemente prudentes para ser respeitadores da extraordinária sabedoria de que poderiam ser depositários ou se seriam apenas simples falsários, orgulhosos de seus diplomas, mas incapazes de sentir a mínima compaixão diante do drama da vida. Eles teriam que, para citar uma última máxima alquímica,
"SABER, PODER, OUSAR E SE CALAR ..."
Compilado por Frédéric Blanchard
http://www.acropole.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=145%3Aalquimia-evolution&catid=39%3Aartigo-simbolismo&Itemid=57
O Coração do Templo
A simbólica do coração atravessa todas as tradições antigas
e iniciáticas, pois ele é o centro do templo humano, o santo
dos santos, órgão espiritual por excelência, o lugar da atividade
transcendente onde a Consciência se manifesta.
Na simbólica tradicional e antiga o coração está analogicamente relacionado com o sol. O sol tem uma função essencial no sistema solar, dele irradiando a luz e a vida. No corpo humano, o coração é o fulcro das funções respiratória e circulatória, e é nele que se estabelece o encontro entre o movimento interno (circulação) e externo (respiração). Os dois movimentos de sístole (contração) e diástole (expansão) têm correspondência na atividade solar. Do mesmo modo que se diz que o sol quando nasce é para todos, também o coração, quando irradia, o faz para todo o corpo.
As diversas tradições fazem desse lugar central o ponto de união entre as esferas do microcosmos e do macrocosmos, dizendo ser o altar do divino, o lugar onde se manifesta o reino de Deus, a morada de Brahma. É simbolizado pelo leão, animal solar e o rei da criação, sendo, por analogia, centro da emoção, dos afetos e da faculdade mediadora entre o céu e a terra.
O coração estabelece o elo de ligação entre o que está em cima e o que está e em baixo, exercendo uma função mercurial, sendo ao mesmo tempo o “cadinho”, um lugar de fusão , o lugar onde o “ovo” é chocado; na tradição oriental, é no coração que a grande ave mítica Hamsa vem depositar esse ovo, simbolizando a nova consciência nascente. O mesmo aspecto é sublinhado, quando se associa o coração ao cálice no ciclo do Graal. Na tradição islâmica é dito que o coração é o ponto de inserção do espírito na matéria, o lugar secreto do conhecimento onde a consciência se cruza com a energia, o lugar onde algo de novo está prestes a germinar.
Clemente de Alexandria dizia que “Deus é o coração do mundo”, e a tradição sufi afirma que “Alá é o coração dos corações”. Estas analogias servem para expressar a nobreza desta faculdade que nos habita e onde se firma a árvore do conhecimento, que se eleva do húmus para o supra-sensível, depois de receber o influxo da graça. Na tradição crística é dito :” Ninguém vai ao Pai senão por mim”, para significar que a reintegração só pode ser feita depois de o viajante ter atravessado o bosque dos espinhos do roseiral (a fragmentação) Daí a imagem do sagrado coração envolto em coroa de espinhos, ou seja, pelas dualidades dilacerantes, antes de alcançar a unidade. Essas dualidades fragmentadas são os nossos afetos, sentimentos e emoções geridos psicologicamente, mas atrás dessas emoções parcelares, existe algo de único, a que se chamou amor universal, ananda, compaixão, e que está subjacente à própria natureza do universo, e que anima a substância de tudo o que é manifestado. Por isso Cristo afirmou que “ o amor salvará o mundo”.
Porque o amor é a tecitura do cosmos, descobrimos em nós uma profunda ânsia de amor. Contudo, esse anseio está disperso e fragmentado em pequenas emoções. Somente o impulso unificador do coração permite aceder à reunião e à manifestação una desse amor. O coração é o lugar dessa androginia, síntese do pólo positivo, expansivo e masculino, e do pólo negativo, receptivo e feminino, donde emerge o novo Adão. É o lugar onde consciência e energia se tornam uma coisa só, o lugar onde terra e céu se encontram no homem. Talvez o único propósito do ser humano, a sua única missão e destino, seja o de ser coração, onde a natureza humana se encontra com a consciência supra-sensível, que se manifesta pela graça que redime a natureza.
Na arquitetura humana, no templo que é o homem, o coração é o receptáculo do influxo da consciência. Mas como a podemos receber se o cálice está sempre cheio de pequenos desejos, emoções e pensamentos ?
A base do trabalho de auto-transformação é a auto-observação diária e permanente das dualidades e da fragmentação psicológica, que tomamos como a nossa vivência quotidiana e verdadeira. Vivemos num permanente jogo de enganos e auto-ilusão, que é facilmente constatável. O caminho árduo de sedução do eu psicológico é a base que prepara a disponibilidade interior para receber o impulso transformador.
Quando se auto-observa o jogo das polaridades colocamo-nos no ponto de vista unificador do cálice, apto a receber o influxo da consciência. Ao darmos a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, estamos a dar o primeiro passo para a abertura ao mistério do coração, à compaixão que se encontra para além dos afetos e emoções parcelares. Essa compaixão existe em cada um, pronta a derramar-se no outro e no mundo. Todos temos o cálice pronto a receber e a dar, e a contribuir para o trabalho de redenção, isto é, introduzir mais consciência no mundo. Esse nobre ideal não está só ao alcance dos seres de excepção, aos Bodhisattvas que, conquistando o direito à libertação e ao nirvana, se recusaram a nele entrar, enquanto o sofrimento e a ignorância fossem o pão nosso de cada dia da humanidade. A natureza espera isso de cada um de nós.
O coração é a dupla porta, que reflete a aspiração natural do homem através do ato inclusivo do coração, no templo que somos, o lugar de recepção do amor que irradia para a natureza. O coração é a sede e o trono do divino no ser humano, que nada espera. A atitude de não exigência e disponibilidade, a par da confiança e da abertura são essenciais. Não há coração aberto à graça e ao mundo se não houver receptividade, candura, abertura, alargando o espaço natural do coração disposto a receber o impulso transformador da consciência.
G.M.
e iniciáticas, pois ele é o centro do templo humano, o santo
dos santos, órgão espiritual por excelência, o lugar da atividade
transcendente onde a Consciência se manifesta.
Na simbólica tradicional e antiga o coração está analogicamente relacionado com o sol. O sol tem uma função essencial no sistema solar, dele irradiando a luz e a vida. No corpo humano, o coração é o fulcro das funções respiratória e circulatória, e é nele que se estabelece o encontro entre o movimento interno (circulação) e externo (respiração). Os dois movimentos de sístole (contração) e diástole (expansão) têm correspondência na atividade solar. Do mesmo modo que se diz que o sol quando nasce é para todos, também o coração, quando irradia, o faz para todo o corpo.
As diversas tradições fazem desse lugar central o ponto de união entre as esferas do microcosmos e do macrocosmos, dizendo ser o altar do divino, o lugar onde se manifesta o reino de Deus, a morada de Brahma. É simbolizado pelo leão, animal solar e o rei da criação, sendo, por analogia, centro da emoção, dos afetos e da faculdade mediadora entre o céu e a terra.
O coração estabelece o elo de ligação entre o que está em cima e o que está e em baixo, exercendo uma função mercurial, sendo ao mesmo tempo o “cadinho”, um lugar de fusão , o lugar onde o “ovo” é chocado; na tradição oriental, é no coração que a grande ave mítica Hamsa vem depositar esse ovo, simbolizando a nova consciência nascente. O mesmo aspecto é sublinhado, quando se associa o coração ao cálice no ciclo do Graal. Na tradição islâmica é dito que o coração é o ponto de inserção do espírito na matéria, o lugar secreto do conhecimento onde a consciência se cruza com a energia, o lugar onde algo de novo está prestes a germinar.
Clemente de Alexandria dizia que “Deus é o coração do mundo”, e a tradição sufi afirma que “Alá é o coração dos corações”. Estas analogias servem para expressar a nobreza desta faculdade que nos habita e onde se firma a árvore do conhecimento, que se eleva do húmus para o supra-sensível, depois de receber o influxo da graça. Na tradição crística é dito :” Ninguém vai ao Pai senão por mim”, para significar que a reintegração só pode ser feita depois de o viajante ter atravessado o bosque dos espinhos do roseiral (a fragmentação) Daí a imagem do sagrado coração envolto em coroa de espinhos, ou seja, pelas dualidades dilacerantes, antes de alcançar a unidade. Essas dualidades fragmentadas são os nossos afetos, sentimentos e emoções geridos psicologicamente, mas atrás dessas emoções parcelares, existe algo de único, a que se chamou amor universal, ananda, compaixão, e que está subjacente à própria natureza do universo, e que anima a substância de tudo o que é manifestado. Por isso Cristo afirmou que “ o amor salvará o mundo”.
Porque o amor é a tecitura do cosmos, descobrimos em nós uma profunda ânsia de amor. Contudo, esse anseio está disperso e fragmentado em pequenas emoções. Somente o impulso unificador do coração permite aceder à reunião e à manifestação una desse amor. O coração é o lugar dessa androginia, síntese do pólo positivo, expansivo e masculino, e do pólo negativo, receptivo e feminino, donde emerge o novo Adão. É o lugar onde consciência e energia se tornam uma coisa só, o lugar onde terra e céu se encontram no homem. Talvez o único propósito do ser humano, a sua única missão e destino, seja o de ser coração, onde a natureza humana se encontra com a consciência supra-sensível, que se manifesta pela graça que redime a natureza.
Na arquitetura humana, no templo que é o homem, o coração é o receptáculo do influxo da consciência. Mas como a podemos receber se o cálice está sempre cheio de pequenos desejos, emoções e pensamentos ?
A base do trabalho de auto-transformação é a auto-observação diária e permanente das dualidades e da fragmentação psicológica, que tomamos como a nossa vivência quotidiana e verdadeira. Vivemos num permanente jogo de enganos e auto-ilusão, que é facilmente constatável. O caminho árduo de sedução do eu psicológico é a base que prepara a disponibilidade interior para receber o impulso transformador.
Quando se auto-observa o jogo das polaridades colocamo-nos no ponto de vista unificador do cálice, apto a receber o influxo da consciência. Ao darmos a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, estamos a dar o primeiro passo para a abertura ao mistério do coração, à compaixão que se encontra para além dos afetos e emoções parcelares. Essa compaixão existe em cada um, pronta a derramar-se no outro e no mundo. Todos temos o cálice pronto a receber e a dar, e a contribuir para o trabalho de redenção, isto é, introduzir mais consciência no mundo. Esse nobre ideal não está só ao alcance dos seres de excepção, aos Bodhisattvas que, conquistando o direito à libertação e ao nirvana, se recusaram a nele entrar, enquanto o sofrimento e a ignorância fossem o pão nosso de cada dia da humanidade. A natureza espera isso de cada um de nós.
O coração é a dupla porta, que reflete a aspiração natural do homem através do ato inclusivo do coração, no templo que somos, o lugar de recepção do amor que irradia para a natureza. O coração é a sede e o trono do divino no ser humano, que nada espera. A atitude de não exigência e disponibilidade, a par da confiança e da abertura são essenciais. Não há coração aberto à graça e ao mundo se não houver receptividade, candura, abertura, alargando o espaço natural do coração disposto a receber o impulso transformador da consciência.
G.M.
Divagações sobre o Iniciado
Divagações sobre o Iniciado.
Interessante que muitas vezes tentamos enterrar aquilo que somos em vez de entender como chegamos a determinado ponto, do que somos feitos e entender para onde vamos.
Com certeza desenterrar os demônios e enfrenta-los não é tarefa fácil. Assim vejo toda e qualquer iniciação.
Ela nos aterroriza, pois nos coloca frente a frente com nossos medos e limitações, expõem nossas fraquezas e nos torna mais humildes pois entendemos que por mais distinção que criemos, somos em essência todos iguais.
Não sendo o iniciado melhor que qualquer outra pessoa sabe que o calar é mais eloquente que a tola discussão e palavras vazias de sentido e proposito, então ele trabalha. Trabalha em si desmontando peça por peça sua personalidade, seus credos suas convicções. Analisa cada parte e o todo, destrói e constrói, cria, aniquila e renasce.
Ele precisa terminar sua tarefa, pois uma vez iniciada esta jornada ela é sem volta.
Não se pode espiar pelas frestas do portal que se põem em nossa frente sem ter que pagar por isso, e só os destemidos apos se depararem com a doce loucura de estar aqui e estar lá continuarão a marcha. Tolos. Somos todos tolos, todos os que ingenuamente buscam pelos caminhos desconhecidos a chama com a qual poderão acender sua própria lâmpada. Temos a faísca, mas não temos o fogo e só os tolos buscam este fogo para serem consumidos por ele.
Não se pode tentar entender algo sem fazer parte daquilo que se observa. O espectador sempre será um expectador e um iniciado nunca será um pacato ouvinte e um manso cordeiro. Ele busca o desafio, pois não existe merecimento na inercia e a roda precisa girar. Torres precisam ser conquistadas, exércitos derrotados e novas terras precisam ser conhecidos. Não se pode sentir o calor do sol por uma simples imagem, é preciso estar lá.
São dois os campos de batalha, um abaixo de seus olhos para lhe lembrar humildade, e outro acima de ti para lhe lembrar que deves sempre buscar mais e mais acima.
Um campo de batalha dentro de seu peito, em seu coração, onde as emoções precisam ser controladas, entendidas e medidas.
Outro campo de batalha esta em sua cabeça no seu discernimento, na sabedoria, no conhecimento e na imaginação que o fara viajar por paragens nunca antes vistas.
Os dois campos devem ser conquistados ao mesmo tempo, pois não se pode equilibrar uma balança somente por um de seus pratos nem é possível ser sem conhecer, entender e experimentar.
Eu fui eu sou e eu serei.
Eu erro, eu errei e errarei.
Eu busco e buscando continuarei.
Cristiano S. G. de Castro.
Interessante que muitas vezes tentamos enterrar aquilo que somos em vez de entender como chegamos a determinado ponto, do que somos feitos e entender para onde vamos.
Com certeza desenterrar os demônios e enfrenta-los não é tarefa fácil. Assim vejo toda e qualquer iniciação.
Ela nos aterroriza, pois nos coloca frente a frente com nossos medos e limitações, expõem nossas fraquezas e nos torna mais humildes pois entendemos que por mais distinção que criemos, somos em essência todos iguais.
Não sendo o iniciado melhor que qualquer outra pessoa sabe que o calar é mais eloquente que a tola discussão e palavras vazias de sentido e proposito, então ele trabalha. Trabalha em si desmontando peça por peça sua personalidade, seus credos suas convicções. Analisa cada parte e o todo, destrói e constrói, cria, aniquila e renasce.
Ele precisa terminar sua tarefa, pois uma vez iniciada esta jornada ela é sem volta.
Não se pode espiar pelas frestas do portal que se põem em nossa frente sem ter que pagar por isso, e só os destemidos apos se depararem com a doce loucura de estar aqui e estar lá continuarão a marcha. Tolos. Somos todos tolos, todos os que ingenuamente buscam pelos caminhos desconhecidos a chama com a qual poderão acender sua própria lâmpada. Temos a faísca, mas não temos o fogo e só os tolos buscam este fogo para serem consumidos por ele.
Não se pode tentar entender algo sem fazer parte daquilo que se observa. O espectador sempre será um expectador e um iniciado nunca será um pacato ouvinte e um manso cordeiro. Ele busca o desafio, pois não existe merecimento na inercia e a roda precisa girar. Torres precisam ser conquistadas, exércitos derrotados e novas terras precisam ser conhecidos. Não se pode sentir o calor do sol por uma simples imagem, é preciso estar lá.
São dois os campos de batalha, um abaixo de seus olhos para lhe lembrar humildade, e outro acima de ti para lhe lembrar que deves sempre buscar mais e mais acima.
Um campo de batalha dentro de seu peito, em seu coração, onde as emoções precisam ser controladas, entendidas e medidas.
Outro campo de batalha esta em sua cabeça no seu discernimento, na sabedoria, no conhecimento e na imaginação que o fara viajar por paragens nunca antes vistas.
Os dois campos devem ser conquistados ao mesmo tempo, pois não se pode equilibrar uma balança somente por um de seus pratos nem é possível ser sem conhecer, entender e experimentar.
Eu fui eu sou e eu serei.
Eu erro, eu errei e errarei.
Eu busco e buscando continuarei.
Cristiano S. G. de Castro.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Da Iniciação: Ruptura, Despertar e Absoluto.
A Iniciação é Ruptura
Sem Ruptura não há Iniciação. Quando há Iniciação sem Ruptura, não é Iniciação, é uma concepção mental da mesma.
Ruptura com o nosso ego – que mais não é do que um eu ilusório, um falso eu, no qual procuramos uma cómoda e irrealista sensação de segurança no sempre mutável mundo da manifestação.
O ego é tão frágil quanto a concepção meramente racionalista e mental da Realidade. O ego é um guardião do umbral, nele se projectam todos os nossos piores receios. É verdadeiramente o nosso pior e único inimigo real. É um obstáculo à Iniciação, mas pode também ser um impulsionador da mesma. Para tal, o ego deve ser considerado como aquilo que é, nem mais, nem menos. Ele pode ser um excelente servo, mas quantas vezes é um terrível senhor!…
O ego tem medo de perder algo. E quanto mais tenta prender com as suas garras aquilo que não pode ser preso, tudo lhe foge.
O eu não tem medo de perder o que quer que seja. Em primeiro lugar, porque nada lhe pertence. Em segundo, porque é tudo.
A Iniciação que é conferida ritualmente numa Ordem Iniciática autêntica transmite uma semente àquele que busca. Porém, assim como um terreno deve ser fértil e estar lavrado para abraçar e fazer crescer essa semente, o iniciável deve romper com o passado, romper com as falsas concepções que tem acerca de si próprio, romper com tudo aquilo que não é verdadeiro. Só quando deixar de pensar a Iniciação é que se tornará naquilo que já era mas não sabia, um Iniciado. É preciso ir para além de pensar a Iniciação. É preciso vivê-la, senti-la e pressenti-la. Por melhor que seja a semente, quando esta é plantada num mau solo, ou quando não é regada, ela jamais crescerá. Será uma semente morta, inútil, desperdiçada. Por isso existe o adágio místico: “Muitos são os chamados, pouco são os escolhidos.”
Receber a semente é o mais fácil. É no preparar o solo e no cuidar da semente que está a chave da realização da Grande Obra. E aí percebemos que a semente nunca nos foi verdadeiramente “dada”, ela já existia em nós, mas estava adormecida.
Na Iniciação, a transmissão é 1% do trabalho, a inspiração é também 1%. Os outros 98% são transpiração. Iniciação sem transpiração é teatro. Iniciação sem transpiração é não-vivência da mesma.
Por isso, bem mais importante do que o grau recebido numa iniciação, é trabalharmos no nosso laboratório-oratório interior para atingir o estado correspondente a esse mesmo grau. Porque, para quem o recebe ou transmite, o grau não implica ter atingido esse estado. O estado não se transmite, conquista-se.
A Iniciação é o Despertar
Enquanto não despertarmos somos homens da torrente, seres adormecidos, inconscientes da sua verdadeira condição.
Aquele que Desperta nasce para uma nova realidade. Ele não nega o “Jogo do Mundo”, conhecido entre os hindus como “Lyla”, o mundo da manifestação visível e da aparência, de natureza fenoménica, fruto do mundo real e invisível, do incriado, de natureza numénica.
Não negando o Jogo do Mundo, aquele que Desperta aceita-o, porque sabe que faz parte da Máquina do Mundo. Mas aceita-o sem o tomar pela realidade. Aceita-o como ilusão. Ele está no mundo, mas não é do mundo, porém, vive no mundo. A sua pátria verdadeira é a das estrelas.
Aquele que Desperta reconhece o mundo que vive como um sonho.
Aquele que Desperta reconhece o mundo que sonha como uma realidade.
Aquele que Desperta, acorda e, assim, tudo lhe é revelado. Pois tudo está em si e Ele é tudo.
Ele é Aquele que É.
A Iniciação é o Absoluto
A Iniciação está para além de quaisquer palavras. O segredo da sua eficácia apenas diz respeito àquele que a vive. Querer defini-la é negá-la.
As técnicas iniciáticas e as ordens iniciáticas devem conduzir o iniciado à Via. Quando não o fazem, não são iniciáticas, são estruturas temporais. A iniciação não é confinável ao mundo da temporalidade. O seu reino é outro, inefável e intocável. A iniciação está para além do tempo e das concepções dos homens.
Sem o Silêncio não se chega ao Mistério.
Sem o Mistério não se chega à Iniciação.
Sem a Iniciação não se chega ao Absoluto.
O Absoluto é o abandono ao ser em si. É o não-fazer e o não-ser: a Não-Via.
A Não-Via não exclui as vias, antes integra-as, potencializando-as como facetas particulares da expressão do Real.
As nossas concepções da Realidade não passam disso mesmo, concepções. E, sendo nossas, nunca poderiam deixar de ser limitadas. Para abraçarmos o Absoluto temos de nos entregar, abandonando-nos ao Vazio. Aí nós somos aquilo que somos e não aquilo que pensamos que somos.
Vazio de mim, eu sou uma taça-receptáculo para o Divino, um Graal cujas facetas são a expressão do múltiplo que é uno.
Três Avisos:
Se eu recusar a iniciação, serei um eterno adormecido, presa da temível fatalidade.
Se, iniciado, eu recusar a ruptura, serei uma infeliz vítima do meu ego.
Se, tendo vivido a ruptura, a negar, mergulharei na noite negra da alma e no limbo dos mundos.
Três Luzes:
A Iniciação Leva à Ruptura
A Ruptura Provoca o Despertar
O Despertar Conduz ao Absoluto
Alexandre Gabriel
http://initiatio.wordpress.com/
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